Como fazer a II FENIT em meio a uma Crise Econômica

“Muitos homens devem a grandeza da sua vida aos obstáculos que tiveram que vencer” C.H. Spurgeon

Queridos leitores, o almoço já estava se estendendo mais do que o Caio havia se programado e o pior, ele ainda não havia encontrado uma brecha para contar para o Lívio, a real situação econômica pela qual o país estava passando, nem para falar a respeito das nuvens negras que estavam se formando em cima da FENIT e sobre as mudanças de planos que precisavam ser feitas para que a FENIT fosse realizada.

Tudo isso o estava incomodando, mas fiel ao seu estilo honesto e transparente de ser, Caio olhou nos olhos do rapaz e resolveu ir direto ao assunto: “Lívio querido, como você sabe, nós brasileiros, desde que Juscelino assumiu a Presidência da República tivemos esperança que finalmente iríamos deixar para trás esse fantasma que nos persegue há séculos, o de sermos uma nação agrícola, doente e analfabeta. Você imagina o que tem sido para nós, sentirmos pela primeira vez na vida orgulho de sermos brasileiros. Ganhamos a Copa do Mundo de futebol, o Campeonato Mundial de Tênis, o Campeonato Mundial do Boxe, o do Atletismo, a nossa musica a “Bossa Nova” é tocada no mundo inteiro e todo mundo adora, recebemos a Palma de Ouro no festival de cinema de Cannes, enfim o nosso país está na moda. Nosso presidente é ovacionado e aplaudido por onde passa e ergueu no meio do nada a cidade mais moderna do planeta”.

“Nossas indústrias” continuou Caio, “vêm se multiplicando a olhos vistos, os dólares chegando. Isso tudo estou te dizendo só para lhe explicar que parece que está tudo maravilhoso, mas não está, o custo desse desenvolvimento acelerado foi a inflação. Os críticos do governo JK dizem que se por um lado, as decisões políticas desse governo podem ser consideradas como bem-sucedidas, por outro, a sua política econômica não foi a mais acertada, na medida em que Juscelino optou por crescer com inflação. No ano passado, 1958, a dívida externa explodiu e para piorar as coisas no início desse ano, 1959, Juscelino rompeu com o FMI, se negando a pagar a dívida que o Brasil tem com esse Fundo. A inflação disparou e neste ano atingiu o ápice e encostou em 40%. Os industriais para se defenderem dela, estão escondendo seus estoques, e do jeito que vão indo as coisas, imagino que eles não terão o que vender na FENIT e consequentemente a FENIT também não terá o que vender”.

“Portanto, Lívio” falou Caio, “estive pensando desde o nosso encontro lá na Rhodia, que como pelo visto, ninguém irá vender nada na FENIT, e consequentemente ninguém terá o que comprar, a saída para você, não é usar a Feira para vender os seus fios , mas usar a FENIT para fazer uma grande Promoção dos seus Fios Sintéticos, através de um Grande e Inesquecível Show, transformando a FENIT num enorme Palco”.

Caio, neste momento estava dando uma guinada de 180º na FENIT, inaugurando-a também, como uma Feira de Promoção, além de uma Feira de Negócio. “Até porque, meu caro amigo”, afirmou Caio, com o seu raciocínio de grande promotor de eventos que sempre fora “eu sempre acreditei na fórmula que um bom espetáculo sempre rende um bom negócio, da mesma maneira que um bom negócio sempre rende um bom espetáculo”.

Lívio ficou fascinado com a maneira de pensar do Caio, até porque foi assim, com essa receita: evento+ lançamento+ entretenimento+ promoções + vendas que esse mago dos negócios veio construindo a sua vida de sucesso. Lívio concordou plenamente com a estratégia do Caio e adotaria para sempre transformar a presença da Rhodia daqui para frente, em todas as FENITs num grandioso acontecimento. Combinaram que para que esse casamento entre FENIT e Rhodia desse certo e que eles “vivessem felizes para sempre” eles iriam se encontrar religiosamente pelo menos uma vez por semana, para discutir tudo o que fosse necessário para que os desfiles se tornassem inesquecíveis, o que acabou acontecendo ao longo dos 11 anos seguintes.

Lívio entrou na sala do Caio agitado, cumprimentou o amigo com uma pressa de quem ia perder o trem, e antes mesmo que o Caio o convidasse para se sentar começou a falar que já faziam algumas noites que ele passava em claro, pensando no desfile, dentro dos moldes como eles haviam combinado, ou seja, um desfile não para vender os modelos, mas sim, que fosse um grande acontecimento. Caio acendeu um cigarro, Lívio agora um pouco mais desacelerado, explicou: “Dr. Caio, os tecidos precisam ser maravilhosos para despertarem nas mulheres a vontade de ter um vestido fabricado com eles, não é esse o objetivo do desfile?”. “Sim, exatamente, respondeu Caio”. Mas, Caio como profundo conhecedor de gente que era, um dom nato que possuía e que foi sendo aperfeiçoado com o tempo, sabia que o problema não estava aí, por isso ficou quieto e deixou o Lívio a vontade para que ele revelasse de fato, onde estava o problema.

“ Dr. Caio o meu maior problema é convencer as mulheres brasileiras, estas que vem à FENIT, a da classe alta, da classe média alta, da classe média que o tecido sintético é ótimo, coisa que essas mulheres não só não acreditam, como também não gostam do fio sintético porque, além de tudo ele é feito em laboratório. Isso sem falar no preconceito que elas têm com a roupa fabricada com esse tipo de material, por considerarem que a roupa fica pobre, padronizada e principalmente imprópria para o nosso calor tropical”. Pronto, pensou Caio consigo, não demorou muito para nosso rapaz revelar onde estava de fato o seu problema, isso sim é um grande problema, pensou Caio com seus botões.

Depois de muita conversa chegaram à conclusão que para essas brasileiras comprarem um vestido fabricado com o fio sintético, era preciso que esse vestido estivesse na moda e essa era justamente a missão de ambos, a missão da FENIT, criar a moda no Brasil.

Combinaram que para criar o glamour necessário para o fio sintético, era necessário primeiro se criar um grande glamour a sua volta. Começaram fazendo uma enorme lista dos ítens mais importantes, aqueles que eles tinham certeza que dariam um enorme glamour ao desfile: primeiro, o desfile precisava ter mulheres lindíssimas, depois, é claro que as roupas precisavam ser maravilhosas também, como o Caio e o Lívio eram amantes dos grandes espetáculos, foram buscar inspiração nos shows da Broadway e decidiram que os desfiles como acontece com os shows, girariam em torno de um tema. Cada ideia que nascia era anotada numa folha de papel, e assim o desfile foi crescendo, as folhas foram tomando conta da mesa, foram “entrando nelas os músicos,” mais papel, foram “chegando os dançarinos”, depois os “cantores” e as ideias não paravam. E o Lívio dizia para o Caio, no seu português italianado, “Dr. Caio, o senhor concorda comigo, tudo tem que ser muito brasileiro”. “A música, os cantores, a dança”. “Claro, Lívio, vai ser um show da Broadway made in Brazil”.

“E tem mais Lívio, esse clima de “brasilidade” dos desfiles, falou Caio orgulhoso, isso também se harmoniza com o próprio objetivo da FENIT que não é só criar uma Moda Brasileira, mas valorizar tudo o que seja nacional, do alfinete à máquina que está sendo exposta nos estandes e acredito que esse seja um caminho para que logo logo, as consumidoras aceitem o fio sintético como sendo um fio nacional.

Se você gostou da gotinha de história que você acabou de ler e, para matar a sua curiosidade e sua sede de conhecimento, sinta-se à vontade para comprar o livro inteirinho.

Ele só está à venda no site: www.vaidarjacaré.com.br