Talvez nós não conhecemos direito o nosso Brasil.

Tenho uma leve impressão que nos últimos tempos o Brasil virou tema das melhores notícias para o Mundo . Ganhamos Oscar, somos apontados por líderes mundiais como exemplo de democracia e outros.

Talvez a gente não saiba o país que tem

Sempre que eu volto de uma viagem para fora do Brasil, acontece a mesma coisa. Não é empolgação, nem comparação direta. É um incômodo silencioso. Uma sensação de que, em algum ponto do caminho, a gente se acostumou demais com o extraordinário.

A gente anda por cidades impecáveis, come bem, tira fotos bonitas… e, ainda assim, algo falta. Não sei explicar direito. Talvez seja o excesso de regras, talvez a distância emocional entre as pessoas. Talvez seja só saudade do que a gente só valoriza quando está longe.

Porque basta pousar de volta aqui para o corpo entender antes da cabeça. O idioma familiar. O jeito de falar alto. O toque. O riso fácil. O improviso. O Brasil não pede licença — ele acontece.

Viajar dentro do Brasil é um exercício curioso. Você não troca de país, mas troca de mundo. Os sotaques mudam, a comida muda, o ritmo muda. É tudo português, mas nunca é o mesmo Brasil. E isso é raro. Muito mais raro do que a gente admite.

O Rio de Janeiro sempre me pega primeiro pelo impacto. Não tem muito o que fazer. A beleza ali é quase inconveniente. Ela interrompe pensamentos. Mas, se você fica um pouco mais, percebe que o Rio não é cenário — é convivência. É alguém que te chama de “meu amor” sem te conhecer. É o caos que assusta e acolhe ao mesmo tempo. Não é perfeito. Nunca foi. E talvez seja exatamente por isso que é tão humano.

São Paulo, ao contrário, não se oferece. Ela precisa ser decifrada. Às vezes cansa. Às vezes exige demais. Mas quando você entende o código, ela revela tudo. Gente do mundo inteiro tentando viver junto. Cozinhas que contam histórias de imigração. Arte que nasce do concreto. São Paulo não te abraça de imediato — ela te convida a ficar.

E aí tem esse fenômeno recente que me chama atenção: estrangeiros descobrindo o Brasil como se fosse novidade. Gravando vídeos, escrevendo relatos, emocionados com coisas que a gente chama de “normal”. O almoço simples. O garçom que puxa conversa. A tentativa desajeitada de falar outra língua só para fazer o outro se sentir em casa.

Isso diz muito sobre eles. Mas diz ainda mais sobre nós.

Porque talvez o Brasil nunca tenha precisado “estar na moda”. Talvez ele sempre tenha sido incrível — só não foi tratado como algo valioso o suficiente nem por quem governa, nem por quem mora aqui.

Em 2025, vimos artistas internacionais vindo fazer shows e ficando mais do que o necessário. Andando sem roteiro. Provando comida de esquina. Observando pessoas. Quando alguém que já viu o mundo inteiro decide ficar mais um pouco, isso não é acaso. É curiosidade verdadeira.

Encerramos o ano com mais visitantes do que nunca. Mas a pergunta que fica, para mim, não é sobre números. É outra:

a gente está preparado para cuidar bem do que tem?

Não só para mostrar, mas para preservar. Não só para receber, mas para valorizar.

Talvez o maior destino turístico do Brasil ainda seja desconhecido por quem mora aqui. Talvez a gente precise viajar menos para fora e mais para dentro. Não por patriotismo barato — mas por reconexão.

Porque no fundo, o Brasil não é um lugar para ser consumido.

É um lugar para ser vivido