Todos os anos, setembro coloca a saúde mental no centro de campanhas, empresas, redes sociais e conversas. Isso importa. Dar visibilidade ao tema ajuda a reduzir estigmas, amplia o acesso à informação e reforça que sofrimento emocional não deve ser tratado como um assunto invisível.
Mas, depois de tantos anos falando sobre saúde mental, talvez seja hora de avançar uma pergunta: estamos apenas falando mais ou estamos aprendendo a falar melhor?
A diferença parece sutil, mas muda completamente a qualidade da conversa. Quando o assunto é saúde mental e prevenção do suicídio, comunicação não é apenas divulgar informações. Ela também está na forma como as palavras são escolhidas, nos ambientes de confiança que são construídos, na disposição para ouvir e na responsabilidade com que a vulnerabilidade é acolhida.
Um problema global que continua atual
Em maio de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou sua análise global mais recente sobre suicídio, reunindo estimativas referentes ao período de 2000 a 2021. O levantamento aponta que 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021.
Naquele ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo. Além disso, 56% das mortes ocorreram antes dos 50 anos e 73% foram registradas em países de baixa e média renda.
Hoje, a própria OMS resume essa realidade em uma frase direta: mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos.
Por trás desse número, porém, não existem apenas estatísticas. Existem histórias, famílias, colegas, comunidades e trajetórias completamente diferentes entre si. E talvez esse seja o primeiro compromisso de uma comunicação responsável: lembrar que nenhum dado substitui a humanidade de quem ele representa.
Saúde mental não cabe em uma explicação simples
Existe uma tendência natural de procurar respostas rápidas para questões complexas. No caso do suicídio, esse é um dos maiores riscos.
A Organização Mundial da Saúde reforça que seus fatores são múltiplos e podem envolver aspectos sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais ao longo da vida. Não existe uma causa única, uma frase capaz de explicar todas as experiências ou uma solução isolada para uma questão de saúde pública dessa dimensão.
Reconhecer essa complexidade não dificulta a prevenção. Pelo contrário: torna a conversa mais responsável e evidencia que ela precisa envolver diferentes setores da sociedade — saúde, educação, políticas públicas, famílias, comunidades, meios de comunicação e organizações.
O papel das empresas vai além da campanha
Grande parte da vida adulta acontece dentro ou em torno do trabalho. Por isso, bem-estar emocional e ambiente profissional dificilmente podem ser tratados como temas separados.
Dados da OMS e da Organização Internacional do Trabalho estimam que 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos anualmente em razão de depressão e ansiedade, gerando um impacto de aproximadamente US$ 1 trilhão por ano na economia global.
Mas reduzir saúde mental à produtividade seria um equívoco. Antes de ser uma questão de desempenho, ela é uma questão humana. O trabalho pode oferecer propósito, pertencimento e relações significativas, mas também pode expor pessoas à sobrecarga, insegurança, discriminação e outros riscos psicossociais que afetam diretamente seu bem-estar.
É justamente por isso que campanhas de conscientização são importantes, mas insuficientes quando caminham sozinhas.
Publicar é importante. Construir uma cultura é indispensável.
Incentivar pessoas a pedirem ajuda é um passo relevante. O desafio começa depois dessa mensagem.
Não basta afirmar que “a porta está sempre aberta” se quem atravessa essa porta teme julgamentos ou consequências para sua trajetória profissional. Da mesma forma, acolhimento exige mais do que boa intenção: exige preparo, segurança psicológica, políticas consistentes, lideranças capacitadas e acesso adequado a apoio profissional.
No centro de tudo isso está uma habilidade frequentemente subestimada: a escuta.
Escutar sem minimizar, sem comparar experiências, sem transformar a dor do outro em uma resposta pronta, sem acreditar que toda conversa precisa terminar com uma solução imediata.
A pergunta mais importante talvez seja a mais simples
Existe uma insegurança comum diante de alguém que demonstra sofrimento: o receio de dizer a coisa errada, de não saber aconselhar ou de não conseguir ajudar.
Mas uma conversa entre pessoas nunca precisou ser perfeita para ser significativa.
Ela também não substitui acompanhamento profissional quando ele é necessário. O papel de amigos, familiares, colegas e lideranças não é oferecer todas as respostas, mas perceber sinais, acolher com respeito e orientar para a busca de apoio adequado.
Quem sabe o Setembro Amarelo represente justamente esse convite: menos preocupação em encontrar as palavras perfeitas e mais compromisso em construir espaços onde respostas sinceras possam existir.
Perguntar “Como você está, de verdade?” continua sendo importante.
A diferença está na disposição para ouvir quando a resposta não for “tudo bem”.

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