Ao longo de quase 37 anos de atuação na segurança pública e no setor do entretenimento, foram acumuladas ideias e convicções que não se originaram de achismos, mas da convergência entre experiência prática real e estudo sistematizado. Ao analisar esse percurso, uma constante se impõe de forma clara e incômoda: a segurança, de maneira recorrente, foi tratada como elemento acessório, incorporado tardiamente ao processo, e não como parte integrante do sistema desde sua concepção.
Na prática, isso se manifesta de um jeito muito concreto. Muitas vezes, quando meus serviços foram contratados, o pedido já vinha pronto, “arrumado” e fechado. O evento já estava desenhado, as decisões críticas já tinham sido tomadas, e a segurança era chamada para cumprir aquilo que alguém idealizou, sem análise de risco formal, sem método, sem lastro técnico. Não havia escolha, havia execução. E é exatamente aqui que começa a confusão que este artigo quer expor: a inversão da lógica da responsabilidade técnica.
Porque, em qualquer área madura, essa inversão seria impensável.
Ninguém entra em um consultório médico dizendo qual remédio deseja tomar. O paciente descreve o problema. Quem define o tratamento é o médico, com base em diagnóstico, análise e responsabilidade profissional. Ninguém chega a um engenheiro determinando quantos ferros ou quanto concreto serão usados. O cliente apresenta a demanda, e o engenheiro calcula, avalia o risco estrutural e assina tecnicamente o projeto. Na segurança de eventos, a lógica deveria ser exatamente a mesma. Só que, por alguma razão cultural, ela é frequentemente violada.
A inversão perigosa
O produtor não define efetivo, não define estratégia e não define planilha operacional. O produtor apresenta o evento e seus parâmetros: público, conceito, local, horários, atrações, fluxos previstos, restrições, operações integradas e o que se quer entregar como experiência.
Quem transforma isso em projeto de segurança é o gestor especializado, e é aqui que se arranja o ponto central. O objetivo primário da segurança não nasce de opinião ou de “achismos” ou conjecturas; nasce da análise e da avaliação de riscos, com todos os riscos que se pode pensar e as consequências dos riscos em potencial, incluindo as hipóteses plausíveis construídas a partir de cenários prospectivos e dados concretos.
É essa etapa que define o modelo de operação, o dimensionamento das equipes, os protocolos, os níveis de proteção e a arquitetura da resposta às emergências. Sem isso, qualquer número vira chute e se transforma em (in)segurança baseada em experiências passadas, tornando apenas o evento uma ilusão organizada.
Por que isso ainda acontece
A explicação não é técnica, mas cultural e, muitas vezes, financeira. A segurança ainda é tratada como custo, não como requisito essencial, pensada no consequente e não no antecedente. Enquanto palco, artistas, estrutura, som e luz são vistos como elementos essenciais do produto, a proteção das pessoas continua sendo empurrada para a lógica do “ajusta depois”, NDJ, ou seja, na hora damos um jeito, como se o risco esperasse a planilha fechar.
Calcular efetivo não é número discricionário, é resultado de método e processos e análise bem-feita. Dependemos do perfil do público, da tipologia do evento, do ciclo completo do tempo, do desenho do ambiente, dos fluxos e acessos, do histórico de incidentes, das vulnerabilidades, das medidas de controle existentes e da legislação aplicável. Não é escolha, sem procedimento, é cálculo estruturado.
E ainda existe a armadilha mais comum, quase sempre pronunciada com ar de tranquilidade: “sempre foi assim e nunca deu problema” ou aquela frase famosa: "No último deu tudo certo." Até o dia em que dá, a chamada imprevisibilidade, aquilo que é desconhecido, o impensável. O risco não surge no dia do incidente, ele já estava lá, se formando como uma onda gigante que se aproxima perigosamente, só não tinha se materializado ainda.
Quem é o responsável, então?
A resposta é direta: O responsável é quem define tecnicamente o modelo de segurança, com base em análise de riscos documentada, e assume a responsabilidade por aquilo que foi dimensionado, proposto e executado. Em termos práticos, isso significa que a responsabilidade não pode estar na mão de quem escolhe por conveniência, por orçamento ou por tradição.
A responsabilidade precisa estar com quem tem método, competência, atribuição jurídica e lastro técnico para decidir e assumir a responsabilidade. Quando decisões técnicas são substituídas por conveniência, ou porque se é amigo de fulano, o que se economiza no papel se paga em exposição ao risco, e risco não se compra ou se paga pra ver. Segundo Peter Drucker, "não existe decisão sem risco; existe apenas decisão consciente ou inconsciente do risco"
Drucker afirma que: A responsabilidade decisória é de quem decide pelas consequências, inclusive quando o resultado não é o esperado. O erro honesto, baseado em análise, é parte do processo. A irresponsabilidade está na decisão sem método.
O que precisa mudar
A análise de risco precisa ser etapa obrigatória, formal e documentada, anterior a qualquer definição operacional. Na análise de risco se organiza e se estrutura toda a sequência lógica da segurança. A responsabilidade técnica precisa ter assinatura, rastreabilidade e consequência real para quem dimensiona errado, seja por excesso, seja por omissão.
Interferir na decisão técnica de segurança é tão absurdo quanto escolher a dosagem de um medicamento controlado. No máximo, o cliente pode impor limites de orçamento. Mas impor limites não significa assumir o direito de decidir o que é tecnicamente necessário. Quando isso acontece, a segurança deixa de ser projeto e vira improviso com uniforme.
Segurança é engenharia aplicada a pessoas, segurança não é acessório do evento, antes de tudo é engenharia de proteção aplicada a pessoas. E engenharia não se faz por achismo. Faz-se por cálculo, análise, método e responsabilidade.
Não é sobre gastar mais ou menos, é sobre gastar certo e dentro da Lei.
Porque quando a segurança falha, não é o orçamento que paga, são as pessoas...

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