O comportamento dos fãs de K-pop, a pressão na grade e os limites da comunicação em eventos de alta complexidade
A discussão sobre a concentração do público diante do Palco Mundo, durante o dia de K-pop do Rock in Rio, não deve ser reduzida à frase emitida pelo sistema de som, ao pedido de recuo ou à reação dos fãs.
O episódio exige uma análise mais profunda, especialmente porque a gestão de multidões precisa começar pelo estudo do público que estará diante da operação.
A pergunta central é: Como conduzir uma multidão se não compreendemos quem são as pessoas que a compõem, quais são suas motivações e o que aquele espaço representa para elas?
O fã faz de tudo para estar diante do seu artista em quaisquer circunstâncias e sob qualquer aspecto. Para nós, que trabalhamos com segurança em eventos, essa frase precisa ser uma premissa de planejamento.
Antes de chegar à grade, aquela pessoa pode ter economizado durante meses, atravessado estados, enfrentado filas e passado horas sob chuva ou calor. Quando conquista seu lugar, encontra ali uma recompensa por todo esse esforço.
Esse é o ponto de partida a partir do qual proponho olhar para a discussão sobre a concentração do público diante do Palco Mundo, no dia de K-pop do Rock in Rio. A análise merece ir além da mensagem emitida pelo sistema de som, do pedido de recuo ou da reação dos fãs.
Sem acesso aos registros da operação, não cabe atribuir responsabilidades ou concluir quais procedimentos foram adotados ou quais seriam melhores naquele momento, mas a discussão permanece e permite formular uma pergunta essencial:
Como conduzir uma multidão sem compreender quem está nela, o que a mobiliza e o significado daquele lugar para essas pessoas?
Atuei e continuo atuando na gestão de eventos de alta complexidade e magnitude, incluindo o próprio Rock in Rio em 2011 e 2013, e mais recentemente, em diversos grandes festivais de música. Desde então, venho estudando sistematicamente o comportamento de públicos e multidões, a ocupação dos espaços, os fluxos, a pressão e a tomada de decisão. Aqui vale uma ressalva: públicos são diversos e multidões são grandes concentrações de vários públicos e, em casos específicos, agem e reagem de forma muito diferente.
Ao longo dessa trajetória, consolidei uma convicção: o estudo do público precisa chegar à mesa de planejamento antes que a primeira pessoa chegue ao portão, quando a ideia se forma na mente de quem produzirá o espetáculo. Nesse exato momento, o planejamento de safety e security já deve soar os primeiros acordes, assim como o analista de multidões deve seguir na mesma direção.
Conhecer e entender o público faz parte da análise de riscos
Em 2015, Rachel Goulart Berto e Mariza Costa Almeida publicaram, na Revista Tecnologia & Cultura, o estudo “Quem são os fãs de K-pop no Brasil?”. A pesquisa reuniu mil respostas, coletadas em 2014 por meio de um questionário divulgado em 14 grupos do Facebook. Na amostra, 85,5% dos participantes eram do gênero feminino e 51,9% tinham entre 15 e 18 anos.
Esses números descrevem aquela amostra, naquele período. Não permitem presumir a composição de um festival atual, tampouco atribuir o mesmo comportamento a todos os fãs. O que levo dessa referência para minha prática é a importância de investigar e considerar a realidade atual do público específico de cada evento.
Qual é a faixa etária? De onde as pessoas vêm? Com quanto tempo de antecedência pretendem chegar? Quanto tempo permanecerão no mesmo lugar? Há menores acompanhados? Quais necessidades de acessibilidade precisam ser atendidas? Como estará o tempo no dia? Quais situações emocionais estão envolvidas? A qual geração pertencem?
Também quero compreender a relação com o artista, a organização das comunidades de fãs e suas formas de comunicação.
Essas informações ajudam a construir hipóteses operacionais que precisam ser verificadas. A orientação do Health and Safety Executive, órgão britânico de saúde e segurança, inclui o perfil do público, a dinâmica da multidão e a adequação do local entre os elementos da avaliação de riscos. Neste aspecto, ressalto que a arquitetura do evento é dinâmica e pode mover-se de acordo com o cenário e os fatos que estão atrelados ao contexto de determinado artista ou banda.
Conhecer o público significa preparar uma operação compatível com as pessoas que ela vai receber, sem classificá-las antecipadamente como frágeis, difíceis ou indisciplinadas. Notadamente, os fãs ou os espectadores se livram dos seus freios e contrapesos no exato momento em que cruzam a faixa limítrofe do controle de acesso e, a partir daquele momento, se entregam à felicidade e às emoções que vão viver e com que tanto sonharam.
A grade tem um significado
Para muitos fãs, permanecer próximo ao palco é parte central da experiência e, por isso, um pedido de recuo encontra mais do que uma dificuldade física. Pode representar a perda de uma posição conquistada com esforço e a preocupação de que outra pessoa ocupe imediatamente aquele espaço que foi conquistado com muito esforço, entrega e perdas. Como gestor, preciso considerar firmemente essa percepção, pois a operação deve explicar a necessidade da medida e organizar sua expectativa em relação à execução. Antes de perguntar por que alguém não recuou, pergunto se havia espaço, se a direção estava clara e se os movimentos dos setores vizinhos estavam sendo acompanhados.
Há uma diferença fundamental entre não querer se mover e não conseguir se mover. Uma pessoa pode compreender a orientação e estar fisicamente impedida de cumpri-la. Essa distinção muda a leitura da ocorrência e a resposta necessária.
O aviso no telão e a resposta esperada
Conforme o relato que motiva esta análise, por volta das 19h, após a apresentação do NEXZ e antes de Hwasa subir ao Palco Mundo, os telões exibiram um aviso de segurança solicitando que o público desse alguns passos para trás para permitir a continuidade da apresentação. O alerta teria permanecido nos telões por aproximadamente 15 a 20 minutos. Eu estava lá nesse dia, mas um pouco afastado, pois tinha ido ver o Jamiroquai. Ao microfone, o locutor reforçou que o show não começaria enquanto o público não recuasse, explicando que a medida era importante para a segurança das pessoas.
A preocupação com a segurança estava expressa pela gestão do evento e, ao mesmo tempo, me fez refletir não sobre o que deveria ser feito, mas sobre a maneira como foi feita a comunicação. Minha reflexão estava naquele momento e ainda está na relação entre a orientação transmitida e as condições para executá-la.
Pedir que uma multidão recue exige saber se existe espaço para esse movimento e como ele será conduzido.
Quem estava nas primeiras fileiras conseguia se deslocar? O público mais atrás recebeu e compreendeu a mesma orientação? Havia equipes acompanhando a movimentação? Como seria evitada a ocupação imediata do espaço liberado?
Sem conhecer os registros operacionais, não posso afirmar quais dessas medidas foram adotadas. São, entretanto, perguntas necessárias para analisar e avaliar a intervenção e verificar se, do ponto de vista do público, a mensagem foi compreendida.
Na minha leitura, vincular o início do show ao recuo pode ser percebido como uma cobrança dirigida ao público, inclusive por pessoas que desejam colaborar, mas não conseguem se mover. A justificativa de segurança é importante e precisa vir acompanhada de uma orientação realizável.
O tempo de permanência do alerta, isoladamente, não demonstra falha ou sucesso. Importa compreender o que aconteceu durante esse período: a mobilidade melhorou? O fluxo de chegada foi administrado? A intervenção produziu o efeito esperado?
É nesse ponto que insisto: comunicar uma necessidade é parte da resposta, mas criar condições para atendê-la é responsabilidade da gestão e não do público. Numa análise preliminar, o NÃO foi uma transferência de responsabilidade de quem tem o dever legal para aqueles que estavam liberados e emocionalmente livres para se entregarem aos seus ídolos.
“Se vocês não recuarem, não iniciaremos o show.”
Como gestor de segurança de eventos, considero essa formulação inadequada. Minha observação não está simplesmente no uso da palavra “não”, mas na condição imposta ao público: a apresentação só começaria se as pessoas resolverem uma situação que talvez não tivessem condições físicas de solucionar. Quem está sob pressão junto à grade pode querer recuar e simplesmente não conseguir. Antes de cobrar uma resposta, precisamos compreender se existe espaço para que ela aconteça. Uma orientação pode ser perfeitamente compreendida e, ainda assim, ser impossível de executar.
A pergunta que o público poderia devolver é tão simples quanto legítima: “Como vamos recuar se não temos espaço? Quem vai nos ajudar?”
É nesse ponto que a comunicação precisa encontrar respaldo na operação. O anúncio no telão e a fala ao microfone devem acompanhar a avaliação dos fluxos, a identificação das áreas de pressão e a atuação coordenada das equipes. A mensagem precisa orientar uma ação viável, com apoio operacional.
Defendo a suspensão ou o adiamento de uma apresentação sempre que as condições de segurança exigirem. O que examino é transformar essa decisão de proteção em uma cobrança que possa fazer o público parecer responsável pela demora do espetáculo. Não conseguir se movimentar não significa se recusar a colaborar.
Na minha compreensão, pedir cooperação exige oferecer orientação clara, condições de execução e apoio. Se a organização solicita um deslocamento, precisa avaliar para onde essas pessoas podem ir e como esse movimento será conduzido.
A responsabilidade pela gestão da multidão não pode ser transferida pelo microfone. Ela permanece com quem planeja, organiza e opera o evento, dentro das atribuições de cada envolvido. O público participa da segurança, mas não pode receber a tarefa de resolver, sozinho, a pressão à qual está submetido.
O que fazemos com o risco que percebemos?
Quem está junto à barricada acompanha uma parte da situação, mas o monitoramento observa outra, e as equipes de atendimento recebem informações que também precisam integrar a análise.
Minha preocupação é saber como essas percepções chegam ao comando e se chegam a tempo. Quem identificou a alteração? Em qual setor? A mobilidade diminuiu? As retiradas estavam se tornando mais difíceis? Quem tinha autoridade para intervir naquele momento?
Experiência de campo tem enorme valor, mas precisa ser comunicada de maneira que permita compreender a condição, para que o processo de tomada de decisão possa acompanhar o resultado com evidências. Um relato como “está apertado” pode exigir atenção imediata, mas precisa ser complementado com localização, sinais observados e evolução da situação naquele espaço que chamamos de Gray zone, ou zona cinzenta, que reúne entre mil e 3 mil pessoas nas barricadas.
E é desta forma que a percepção individual se transforma em informação operacional.
Densidade não conta toda a história
Outro aspecto importante é a densidade, que relaciona o número de pessoas à área ocupada. É um dado importante, mas precisa ser interpretado junto com a distribuição do público e sua capacidade de movimentação.
Uma média geral pode esconder uma concentração localizada. Por isso, no meu modelo de avaliação, acompanho também os fluxos, as condições de circulação e as possibilidades de atendimento e retirada, pois quero entender como a situação está evoluindo. A próxima atração está prestes a começar? Mais pessoas estão chegando? Há movimentos em sentidos opostos? A operação mantém alternativas para agir?
Nesse cenário, a leitura de campo se encontra com o uso da tecnologia. Câmeras e sistemas de acompanhamento ampliam a observação, mas seus dados precisam ser compreendidos dentro do contexto pelo analista de risco ou pela equipe de Crowd Management.
Defendo a combinação entre observação humana qualificada, recursos técnicos e critérios claros de decisão. Nenhum equipamento elimina a responsabilidade de quem interpreta e decide. Aliás, sempre disse e reafirmo que a segurança de frente de palco não é para a proteção do artista, como muitos pensam, mas para a proteção do público, daquelas pessoas que se aglomeram naquele cinturão cinza.
É preciso combinar com o público
Essa expressão resume parte da minha maneira de trabalhar e resolve uma série de questões que são muito peculiares aos processos de evacuação em eventos de alta complexidade. Combinar com o público significa explicar o que está acontecendo, indicar uma ação possível e demonstrar que as equipes estão preparadas para conduzi-la.
A organização continua responsável pelas decisões. Adiar ou interromper uma apresentação pode ser necessário, mas a comunicação precisa favorecer a cooperação e corresponder ao que está acontecendo no terreno.
Também considero essencial comunicar antes do evento. Informações sobre chegada, circulação e procedimentos não precisam esperar o momento de maior tensão. O HSE recomenda comunicação com o público antes, durante e depois do evento, além de um fluxo eficaz de informações entre as equipes.
Reconhecer a expectativa dos fãs ajuda a estabelecer essa relação. Quem esperou tanto por uma apresentação precisa compreender por que a intervenção é necessária e como pode colaborar, e essa confiança se constrói com clareza, coerência e presença operacional.
Os “Gomos da Maçã” e a organização do espaço
Utilizo a expressão “Gomos da Maçã” como uma analogia didática para explicar a setorização: compreender a área de público em partes com capacidade, acompanhamento e possibilidades de intervenção próprias.
A aplicação depende de projeto técnico e não existe uma configuração que sirva automaticamente para qualquer evento. A aplicação permite que cada setor seja avaliado em relação aos demais. Para onde irão as pessoas que saírem? O percurso estará disponível? O local de destino poderá recebê-las? Pode haver um efeito em cascata para outras pessoas quando houver um movimento não convencional? Barreiras, corredores e equipes precisam fazer parte da mesma solução. As orientações internacionais também tratam o gerenciamento de fluxo e pressão como uma combinação de filas organizadas, sinalização, barreiras apropriadas e profissionais de apoio.
Nesse ponto, faço uma ressalva que considero indispensável: profissionais de apoio não devem ser utilizados como barricadas humanas para suportar pressão coletiva, pois quem trabalha na operação também precisa estar protegido.
Especialização, treinamento e autoridade para agir
Defendo também que eventos de alta complexidade e magnitude tenham uma função especializada de gestão de multidões, integrada à liderança geral da segurança.
Na estrutura que proponho, o Head Security coordena responsabilidades amplas, enquanto o Crowd Manager dedica atenção à ocupação, aos fluxos e ao comportamento coletivo. Essa organização precisa trazer clareza sobre quem acompanha, quem recomenda, quem decide e quem executa. Isso vale para a preparação das equipes. Uma capacitação e um treinamento, seguidos de um briefing, alinham uma operação; a capacitação desenvolve as competências necessárias para a realização daquele evento específico, quase uma customização operacional.
Necessariamente precisamos de profissionais que conheçam seu setor, reconheçam alterações, saibam comunicar e compreendam os limites de sua atuação e também que tenham condições de informar uma preocupação e receber uma resposta. A qualidade da decisão depende dessa conexão entre quem está no terreno e quem coordena.
A experiência precisa deixar um método
Ao longo de mais de 35 anos em segurança pública, corporativa e eventos, aprendi que uma operação deve ser avaliada pelas condições que produziu. Conseguimos aliviar o setor? O deslocamento aconteceu com segurança? Os corredores permaneceram disponíveis? A intervenção criou alguma dificuldade em outra área?
São perguntas que precisam permanecer depois do encerramento do espetáculo. Vejo o avanço do Crowd Management no Brasil ligado à nossa capacidade de registrar essas experiências, estudar decisões e transformar aprendizado em formação continuada.
Essa é a contribuição que procuro levar ao meu trabalho: compreender o contexto, fundamentar recomendações e ajudar os tomadores de decisão a agir enquanto ainda existem alternativas.
O fã veio viver um momento especial, cabe à gestão considerar essa expectativa com a mesma seriedade com que examina o espaço, os recursos e os procedimentos.
A gestão de multidões precisa começar pelo estudo do público e, no caso do K-pop, os dados disponíveis indicam, naquela amostra, presença expressiva de mulheres e adolescentes, forte concentração regional e identificação com o gênero musical independentemente de origem familiar asiática. Esses elementos não autorizam generalizações absolutas, mas oferecem informações relevantes para planejamento, comunicação, atendimento e gestão de risco.
O fã faz de tudo para estar de frente com seu artista e quem trabalha com Crowd Management precisa saber disso antes de abrir os portões e não depois que a multidão já está comprimida na barricada.
O Brasil avançou em planejamento, integração institucional, comando, tecnologia, capacitação e gestão de fluxos. Mas ainda precisamos consolidar o Crowd Management como uma especialidade autônoma e indispensável.
Não basta ter um Head Security, não basta ter segurança privada e não basta ter câmeras ou emitir ordens. Eventos de alta complexidade precisam de um Crowd Manager capaz de compreender a multidão, antecipar seus movimentos e transformar essa compreensão em decisões operacionais.
Precisam de stewards capacitados, comunicação que construa cooperação, barreiras que reduzam a pressão, sistemas analógicos e digitais complementares e treinamento antes da emergência.
A principal lição é:
A segurança de uma multidão não depende apenas de controlar pessoas. Depende de compreender como elas se comportam, por que se comportam dessa forma e quais condições permitem conduzir esse comportamento com segurança. Depois de tantos anos de atuação e estudo sistemático, continuo entendendo que esse é um dos grandes desafios do Brasil e também uma das áreas em que mais precisamos investir:
Transformar experiência em método, método em treinamento e treinamento em capacidade real de decisão.
Sobre o autor
Camilo D’Ornellas é mestre em Estratégia e Segurança Marítima pela Escola de Guerra Naval (EGN), gestor credenciado pelo Departamento de Polícia Federal (DPF) e profissional com mais de 35 anos de experiência em segurança pública, segurança corporativa, gestão de riscos, gestão de crises e operações de eventos de alta complexidade e magnitude.

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