Não é menos segurança, é outra segurança

Este artigo analisa a gestão da segurança a partir das transformações recentes no comportamento social e urbano, examinando de que forma essas mudanças impactam a segurança pública e privada, especialmente em eventos de alta complexidade e magnitude. Parte-se do entendimento de que a segurança não pode mais ser concebida apenas como resposta reativa a incidentes, mas como um sistema integrado às dinâmicas comportamentais, ao uso do espaço urbano e à construção simbólica das experiências coletivas. A partir da análise da mudança nos padrões de socialização, com destaque para a redução do consumo de álcool e a reorganização do tempo social, o texto discute como o risco se desloca e assume novas formas. Por fim, o artigo incorpora uma abordagem prospectiva, apontando a necessidade de métodos estruturados de análise de cenários para antecipar tendências e apoiar processos decisórios mais consistentes na gestão da segurança contemporânea.

A mudança no consumo de álcool e o novo comportamento urbano e como isso redefine o planejamento da segurança em eventos

Durante décadas, o planejamento da segurança em eventos partiu de um pressuposto quase automático: o público estaria consumindo álcool, e em volume relevante. Essa variável moldou o dimensionamento de equipes, a estrutura médica, os protocolos de intervenção e até a própria arquitetura dos eventos. O álcool foi tratado como variável central do risco.

Esse cenário está mudando, e não se trata de uma moda passageira, mas de uma transformação cultural profunda, especialmente entre os públicos mais jovens e as gerações. Pesquisas recentes indicam crescimento consistente da abstinência e da redução do consumo de álcool entre pessoas de 18 a 34 anos, com destaque para a faixa dos 18 aos 24. Esse dado não pode ser interpretado de forma isolada. Ele se insere em um movimento mais amplo de redefinição da relação das pessoas com o corpo, com o tempo, com a cidade e com a própria socialização.

Quando o símbolo muda, o sistema inteiro muda, pois existe um paralelo histórico claro e elucidativo.

Entre as décadas de 1950 e 1980, o cigarro funcionava como um verdadeiro dispositivo de socialização. Fumar organizava encontros, conversas, pausas e rituais cotidianos. Não era apenas um hábito individual, mas um elemento estruturante da vida social, amplamente legitimado culturalmente.

O cigarro era símbolo de sucesso, status e pertencimento. Sua presença era massiva na publicidade televisiva, no cinema e nas revistas. Grandes festivais de música carregavam, inclusive, o nome de marcas de cigarro, naturalizando a associação entre lazer, juventude, sofisticação e tabaco. A mensagem simbólica era clara: fumar fazia parte da experiência social desejável. Esse mesmo mecanismo simbólico se reproduzia em outros consumos associados ao poder e ao prestígio. Nas novelas brasileiras, o imaginário do sucesso frequentemente se materializava na figura do personagem rico que, ao chegar em casa, abria uma garrafa de uísque para relaxar e socializar. O consumo não aparecia como excesso, mas como expressão de autoridade, luxo, controle e maturidade social.

O cigarro não desapareceu da vida social por um colapso súbito de consumo. O que ocorreu foi uma mudança gradual de percepção. Primeiro, a disseminação de informações em saúde. Depois, a perda de status simbólico. Por fim, a regulação formal. O cigarro deixou de ser o eixo da socialização muito antes de deixar de existir como produto.

Com o álcool, especialmente entre os jovens contemporâneos, o processo guarda semelhanças evidentes. Quem tem hoje cerca de 20 anos cresceu em um ambiente no qual o álcool já não é sinônimo automático de encontro. A socialização não começa mais no bar. Ela começa na experiência. O álcool, quando presente, é acessório e, muitas vezes, dispensável. Já o público em torno dos 30 anos foi socializado em outro contexto. Para essa geração, o álcool ainda desempenha um papel ritual, associado à celebração, ao alívio do estresse e à convivência noturna. Não se trata, necessariamente, de consumo impulsivo, mas de um hábito culturalmente enraizado. Essa diferença não é apenas etária. Ela é socioambiental. Representa formas distintas de compreender o tempo, o espaço urbano e a própria convivência social.

A nova cidade e o novo tempo social

A mudança no consumo de álcool dialoga diretamente com outra transformação silenciosa das grandes cidades: sair mais cedo, voltar mais cedo e valorizar o dia seguinte. Eventos diurnos, atividades ao ar livre, corridas nas manhãs de domingo, caminhadas em parques e orlas, alimentação saudável e o culto ao bem-estar passaram a ocupar posição central na vida urbana. O espaço público voltou a ser protagonista. Essa reorganização altera profundamente o mapa do risco. O horário crítico deixa de ser exclusivamente a madrugada. O risco se desloca para manhãs e fins de tarde.

O público está mais sóbrio, mais atento, mais consciente do ambiente e menos tolerante ao improviso. Um público sóbrio percebe falhas que antes passavam despercebidas: filas mal dimensionadas, sinalização confusa, comunicação truncada e decisões incoerentes da organização. O álcool sempre funcionou, gostemos ou não, como um amortecedor de percepção. Sem ele, a margem de erro operacional se reduz drasticamente.

Impactos diretos na gestão da segurança em transformação geram pelo menos quatro impactos centrais no planejamento da segurança de eventos.

O primeiro é comportamental. A redução do consumo de álcool tende a diminuir conflitos impulsivos e escaladas emocionais rápidas. A violência interpessoal associada à desinibição química perde relevância. Em contrapartida, cresce a importância da leitura de comportamento, da antecipação e da gestão de tensões sutis.

O segundo impacto é operacional. O perfil das ocorrências se transforma. Reduzem-se atendimentos por intoxicação alcoólica e aumentam situações relacionadas à ansiedade, fadiga, sobrecarga sensorial, desidratação e esforço físico. Postos médicos continuam essenciais, mas operam sob outra lógica de preparo.

O terceiro impacto está na leitura de risco. O público reage mais rapidamente às falhas da operação. Pequenos erros acumulados geram frustração, evasão e pressão sobre a organização. O risco deixa de ser explosivo e episódico e passa a ser contínuo e cumulativo.

O quarto impacto é estratégico. A segurança deixa de ser centrada na força e passa a ser centrada no desenho do evento. Fluxos, conforto, iluminação, comunicação e organização do espaço tornam-se instrumentos centrais da prevenção.

Como as equipes de segurança precisam se preparar, esse novo cenário exige mudança de postura, não apenas de protocolos.

As equipes precisam atuar de forma mais acessível e orientadora. Comunicação clara, presença visível e abordagem educativa passam a ter mais valor do que posturas excessivamente coercitivas.

O treinamento em leitura de comportamento torna-se essencial. Identificar sinais precoces de exaustão, confusão, estresse térmico ou tensão coletiva evita que situações simples evoluam para crises. A integração entre segurança, brigada e atendimento médico deixa de ser desejável e passa a ser obrigatória. Em eventos diurnos e ao ar livre, quem percebe primeiro um problema quase sempre é o profissional de segurança. O domínio do território também muda de patamar. Segurança passa a ser, literalmente, gestão do espaço. Conhecer fluxos naturais, pontos de sombra, áreas de descanso, gargalos e rotas rápidas passa a integrar o núcleo da operação.

O papel dos métodos prospectivos e a futurologia nas decisões

Nesse contexto, a futurologia aplicada não deve ser compreendida como uma tentativa de previsão exata do futuro, mas como um processo estruturado de leitura de padrões, tendências e interdependências. Trata-se de abandonar a lógica intuitiva do “achismo” e substituí-la por métodos capazes de organizar a incerteza de forma científica.

A utilização de métodos prospectivos tradicionais, como o Delphi, os Impactos Cruzados e as abordagens de cenários prospectivos, a exemplo do método Grumbach, permite transformar percepções difusas em hipóteses testáveis e cenários coerentes. Esses métodos oferecem um caminho sistemático para identificar variáveis críticas, compreender suas relações de influência e avaliar trajetórias plausíveis de futuro.

Mais do que antecipar eventos específicos, a futurologia aplicada contribui para qualificar a tomada de decisão. Ela ajuda a responder, com maior grau de consistência, a questões centrais para a gestão da segurança: quais mudanças tendem a se consolidar, onde os riscos tendem a se deslocar e quais estratégias apresentam maior robustez frente à incerteza. Ao incorporar métodos prospectivos, a gestão da segurança deixa de operar apenas com base em experiências passadas ou percepções individuais e passa a se apoiar em decisões orientadas por dados, análise estrutural e consenso qualificado. Em um cenário social em rápida transformação, essa transição não é um diferencial acadêmico, mas uma exigência operacional para quem pretende atuar com responsabilidade e eficácia.

Não é menos segurança, é outra segurança. O público mudou, a cidade mudou e o tempo social mudou, consequentemente, o comportamento também.

O álcool está perdendo o papel estruturante que já teve na socialização, assim como o cigarro perdeu no passado. Quando um símbolo muda, todo o sistema ao redor precisa se reorganizar. Eventos planejados com a lógica de ontem enfrentarão os riscos do amanhã despreparados. Aqueles que compreenderem essa virada cultural terão operações mais eficientes, menos conflituosas e mais alinhadas com a realidade contemporânea.

Essa mudança já está em curso, a diferença está entre quem percebe, se antecipa e redesenha seus modelos e quem apenas reage quando o problema já se transformou em crise.

Fonte: G1