O Brasil encerrou mais um Carnaval com resultados que vão além da festa. Os números de público, a alta taxa de ocupação hoteleira, o aumento no fluxo de voos nacionais e internacionais e o impacto direto em bares, restaurantes, transporte e comércio confirmam algo que os dados já vinham sinalizando: o país está cada vez mais competitivo como destino turístico global.
Cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Paulo registraram forte presença de visitantes estrangeiros, com aeroportos operando próximos ao limite e redes hoteleiras com ocupação máxima em diversos períodos. Até mesmo Curitiba, tradicionalmente fora do eixo carnavalesco, apresentou programação intensa e alta circulação de turistas.
O impacto econômico é mensurável. O Carnaval movimenta bilhões de reais, gera empregos temporários, ativa cadeias produtivas inteiras — da indústria cultural à logística — e projeta internacionalmente a imagem do país. Mas reduzir esse movimento a números seria insuficiente.
O que chama atenção é a percepção internacional sobre o Brasil. O turista que chega atraído pela música, pelas paisagens ou pela curiosidade cultural frequentemente sai falando sobre algo menos tangível: a experiência humana. A receptividade, a informalidade acolhedora, a capacidade de integração imediata. Esse “ativo intangível” — o capital social brasileiro — tem se mostrado um diferencial competitivo real.
E essa nova percepção global não está mais restrita ao futebol. Embora ele continue sendo um símbolo importante, o Brasil contemporâneo se apresenta ao mundo por múltiplas frentes: gastronomia reconhecida, diversidade musical, produção acadêmica, inovação, sustentabilidade e, de forma muito expressiva, o cinema.
O cinema brasileiro, cada vez mais premiado e presente em festivais internacionais, tem contribuído para reposicionar a narrativa sobre o país. Obras como Cidade de Deus, Central do Brasil , Agente Secreto, Ainda Estou Aqui e outras produções recentes que circulam por Cannes, Berlim e Veneza mostram um Brasil complexo, criativo e potente. Não é um país simplificado por estereótipos, mas uma sociedade diversa, capaz de contar suas próprias histórias com qualidade técnica e força artística.
Internamente, esse reconhecimento também tem um efeito simbólico importante: gera pertencimento. Em um cenário global frequentemente marcado por polarizações e disputas narrativas, ver o Brasil sendo valorizado por sua cultura, sua arte e sua capacidade de acolhimento fortalece a autoestima coletiva.
É claro que o país enfrenta desafios estruturais — sociais, econômicos e institucionais. Ignorá-los não contribui para o debate público. Mas reconhecer avanços e virtudes também é parte de uma análise madura. Países são feitos de contrastes, e o Brasil não foge a essa regra. A diferença está na capacidade de transformar diversidade em potência cultural.
Quando estrangeiros elogiam o atendimento no SUS, a comida regional, a música de rua, a organização de grandes eventos ou a hospitalidade cotidiana, estão reconhecendo algo que estatísticas sozinhas não capturam: a qualidade da experiência brasileira.
O Brasil é, de fato, gigante pela própria natureza — territorial, cultural e humana. E o momento atual demonstra que o mundo tem ampliado seu olhar sobre o país. Não apenas como o “país do futebol”, mas como uma nação criativa, plural e economicamente relevante no setor cultural e turístico.
Sentir orgulho disso não é romantizar. É reconhecer dados, impactos e, ao mesmo tempo, valorizar aquilo que nos diferencia: a capacidade de receber, integrar e transformar encontros em memórias.
Ser brasileiro, hoje, é entender nossos desafios — mas também reconhecer que há muito no país que merece ser celebrado com responsabilidade, lucidez e confiança no futuro.

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