Os recentes episódios de incêndios com aglomerações de pessoas, o primeiro em Crans-Montana na Boate Le Constellation na Suíça e que fez lembrar por vários aspectos o caso Brasileiro da Boate Kiss em Janeiro de 2013 e mais recente, do Shopping Tijuca no Rio de Janeiro ocorrido no último dia 02 de Janeiro de 2026, com problemas de evacuação e grande quantidade de fumaça, reascendeu e nos fez refletir em como estamos lidando com essas situações de incêndios e evacuações para o atingimento eficaz e eficiente dos protocolos de emergência ao que eles se propõem.
Incêndios em casas de espetáculo não são acidentes isolados, mas são, sim, o resultado previsível de decisões erradas acumuladas ao longo do tempo. Cada tragédia expõe, aquilo que já estava quebrado antes da primeira chama: projeto, gestão, treinamento, cultura e responsabilidade. Aprender com o incêndio não é chorar as vítimas, mas é mudar radicalmente a forma como certos eventos são pensados, autorizados e operados.
A segurança no conceito macro, aquilo que amplamente denominamos de Safety e Security, não começa só no planejamento, mas no projeto e não na vistoria. É imperioso contratar profissionais capacitados e conhecedores daquela especificidade a que ele se propõe.
Nenhum espaço ou evento deveria operar sem um Projeto de Segurança e de Incêndio e Pânico integrado ao projeto arquitetônico e ao modelo operacional do evento, pois isso significaria um cálculo real da carga de ocupação de público e o dimensionamento correto das rotas de fuga e uma equipe bem treinada para executar tarefas no momento do pânico.
A iluminação e sinalização devem ser visíveis e, em ambiente tomado por fumaça, a evacuação seria compreendida pela população flutuante, ou seja, aquela que não conhece o local nos detalhes.
“Quando a segurança é pensada depois, ela vira adaptação improvisada. E improviso mata.”
Um aspecto que entendo ser muitas vezes negligenciado são as saídas de emergência que não se resumem apenas à colocação de uma placa na parede. É a capacidade de escoamento humano sob pânico e desespero, baixa visibilidade e pressão física.
Além disso, é importante termos rotas desobstruídas, largura compatível com o fluxo simultâneo, redundância de caminhos, pois uma rota única nunca é suficiente, portas destravadas e uma equipe com uniformes adequados e com preparo total para uma evacuação de não combatentes.
A retórica é sempre a mesma: devemos treinar nossas equipes de segurança e brigadas; mas será que só isso é suficiente? Falar em equipes treinadas pressupõe, antes de tudo, que essas equipes compreendam a diferença entre simulado e simulacro. E aqui residem um dos maiores desafios e uma das maiores fragilidades da segurança em locais de grande concentração de pessoas ou em eventos.
O simulado é o treinamento realizado sem a presença de público. Ele testa protocolos, fluxos, tempos de resposta, comunicação interna e cadeia de comando. É necessário, mas insuficiente. No simulado, o ambiente é controlado, previsível e emocionalmente neutro. As equipes sabem que não é real.
O simulacro, por sua vez, é o treinamento com a presença de público, ainda que parcial, controlada ou informada. Ele introduz a variável mais crítica de qualquer emergência: o comportamento humano real e sob pressão. Surpresa, medo, curiosidade, negação, imitação social, resistência e compressão espacial passam a fazer parte do cenário.
A maioria dos eventos ou de locais para eventos param no simulado quando chega a existir tal treinamento. Pouquíssimos avançam para o simulacro.
No meu entendimento, após tantos anos, isso não ocorre por impossibilidade técnica, mas podem existir alguns fatores, como medo da reação do público, medo de impacto na imagem do evento, medo de críticas, medo de “dar errado” e até mesmo pelo custo desta operação próxima da realidade. O paradoxo é evidente: o que se evita no treinamento reaparece, amplificado, na emergência real.
No simulacro, testa-se a capacidade de compreensão do público, as mensagens sonoras e visuais, os gargalos humanos e o estresse e o pânico entre todos, inclusive as equipes operacionais responsáveis pela condução da operação. Igualmente, é no simulacro que se testa se as pessoas obedecem às orientações, se seguem as rotas e se as rotas suportam os fluxos ou se colapsam.
Tudo é testado e verificado o mais próximo da realidade e, consequentemente, ajustes serão feitos após o Debriefing.
“O simulacro não testa sistemas, testa pessoas dentro do sistema.”
“O simulacro não é excesso de zelo, é maturidade operacional.”
Eventos de alta complexidade e magnitude não podem continuar tratando o simulacro como algo opcional ou inviável. Ele é, muitas vezes, o último filtro antes da tragédia. Onde não há simulacro, resta apenas a esperança de que nada aconteça e de que a esperança nunca foi estratégia de segurança factível.

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