Sergio Junqueira Arantes entrevista Tonico Novaes, palestrante do Fórum Eventos 2026

Entre gerações, inovação e execução: o que Tonico Novaes revela sobre o novo momento dos eventos A trajetória de Antônio (Tonico) de Araujo Novaes Junior à frente da Campus Party não se resume à expansão de um dos maiores festivais de tecnologia do mundo. Ela expõe, de forma direta, os dilemas centrais do setor de eventos: crescimento em cenários adversos, gestão de diferentes gerações e, sobretudo, a tensão permanente entre inovação e execução. Hoje, à frente de uma nova fase empreendedora com a NextGen, Tonico traz uma leitura pragmática — e em alguns pontos crítica — sobre o momento atual do setor.
Tonico Novaes

SERGIO JUNQUEIRA ARANTES ENTREVISTA TONICO NOVAES: O VERDADEIRO CONFLITO NÃO É GERACIONAL — É DE PERSPECTIVA

Executivo analisa liderança, cultura organizacional e o papel dos eventos em um mercado que precisa reaprender a lidar com pessoas

A trajetória de Antônio (Tonico) de Araújo Novaes Junior, palestrante no Fórum Eventos 2026, à frente da Campus Party não se resume à expansão de um dos maiores festivais de tecnologia do mundo. Ela expõe, de forma direta, os dilemas centrais do setor de eventos: crescimento em cenários adversos, gestão de diferentes gerações e, sobretudo, a tensão permanente entre inovação e execução.

Crescer no caos: o aprendizado da Campus Party

Ao longo de uma década à frente da Campus Party, Tonico Novaes construiu uma trajetória marcada por expansão, experimentação e enfrentamento constante do novo. Foram 50 edições realizadas em diferentes regiões do país — um movimento que, segundo ele, só foi possível por uma disposição permanente ao risco.

O que definiu esse ciclo foram os desafios, a oportunidade de crescer, de aprender, de escutar o novo e de ver o que poderia vir de diferente”.

A frase resume não apenas o passado, mas também o presente de Tonico Novaes, um dos palestrantes do Fórum Eventos 2026, que hoje lidera uma operação focada em eventos proprietários - Pixel Show, Gov Summit, Animagine, Printer Chef etc. -, Tonico traz uma leitura pragmática — e em alguns pontos crítica — sobre o momento atual do setor, com forte componente de tecnologia e inclusão.

Ao assumir a Campus Party em 2015, Tonico entrou em um momento de instabilidade econômica. Ainda assim, optou por um movimento pouco conservador: expandir.

Mas o ponto mais relevante não são os números — é o método. A lógica adotada foi clara:

  • enfrentar o desconhecido
  • operar em mercados culturalmente distintos
  • reconstruir o modelo continuamente (inclusive com orçamento base zero)

Esse processo consolidou um aprendizado central: “eventos em escala não se sustentam sem adaptação constante ao contexto local”.

Do crescimento à ruptura: a decisão de empreender

Após dez anos liderando um dos principais festivais de tecnologia do mundo, Tonico percebeu um limite claro: estava operando uma marca que não era sua.

Eu costumo brincar: foram 10 anos pedalando a marca dos outros”.

A decisão de saída não veio de forma abrupta, mas como resultado de um processo interno de amadurecimento. O impulso empreendedor, segundo ele, sempre esteve presente — e acabou se impondo.

Chega uma hora que você quer construir algo próprio, com seus próprios festivais, sua própria visão”.

Esse movimento marca uma transição relevante: de gestor de plataforma para criador de propriedade intelectual.

Empreender como necessidade, não opção

A saída da Campus Party após uma década não foi apenas uma decisão de carreira, mas um movimento coerente com seu perfil.

A criação da NextGen representa uma mudança de posição:

  • de operador de marca para criador de propriedade
  • de gestor para empreendedor de portfólio

O modelo adotado é claro: desenvolvimento de eventos próprios com forte componente de:

  • tecnologia
  • experiência
  • inclusão digital e social

Essa estratégia aponta para uma tendência relevante: “a busca por propriedade intelectual no setor de eventos”.

Conflito de gerações: diagnóstico impreciso. O verdadeiro conflito não é geracional — é de perspectiva

Um dos pontos mais provocativos do pensamento de Tonico está na leitura sobre gerações. Tema central de sua palestra no Fórum Eventos 2026, que se realiza no Villa Blue Tree, nos dias 11 e 12 de maio, o conflito geracional é tratado por Tonico com um olhar menos ideológico e mais pragmático.

O principal desafio é o conflito com as gerações”. Ao contrário do discurso dominante, ele relativiza o chamado conflito geracional. Para ele, o problema não está na idade, mas na forma de pensar.

Mas a análise não para aí. Ele desmonta a narrativa dominante: “acho que é uma construção exagerada. No final, todo mundo tem boleto para pagar”. A crítica é direta: o comportamento rebelde das gerações tende a se ajustar quando confrontado com responsabilidade real. Para ele, o problema está mal formulado, “O verdadeiro conflito não é a idade, é perspectiva”. Ou seja, o que está em jogo não é geração, mas repertório, experiência e forma de interpretar o contexto.

A convivência entre perfis distintos — jovens mais imediatistas e profissionais mais experientes — gera tensão, mas também potencial.

Quando bem conduzida, essa tensão produz equilíbrio:

  • de um lado, ousadia e velocidade
  • do outro, estratégia e consistência

O erro, segundo ele, “está em tentar rotular gerações, em vez de compreender indivíduos”. Essa visão desmonta uma tendência comum no mercado: simplificar comportamentos complexos em categorias superficiais.

Liderança: quem não aprende, desaparece

Ao tratar do papel dos líderes, Tonico Novaes, palestrante no Fórum Eventos 2026, que se realiza no Villa Blue Tree, nos dias 11 e 12 de maio, adota uma posição objetiva, sem concessões: “Quem não entende como lidar com as gerações deixa de ser líder e a empresa não prospera”.

A integração entre diferentes visões não é opcional — é condição de sobrevivência. Nesse sentido, ele defende estruturas organizacionais mais abertas: “Todos têm que ser ouvidos. Ninguém pode ter medo de falar dentro da corporação”. A ausência de escuta, segundo ele, leva a um processo silencioso de deterioração interna — muitas vezes invisível até que seja tarde.

Inovação sem timing é erro operacional

Se há um ponto onde Tonico é particularmente incisivo, é na crítica à aplicação indiscriminada da inovação. Um dos pontos mais consistentes da entrevista está na distinção entre criação e execução — algo frequentemente negligenciado no setor de eventos. “Na hora da execução, não é momento de trazer novas ideias”.

A crítica é dirigida diretamente a lideranças que confundem criatividade com improviso: “Não adianta ficar estressando o time com ideias mirabolantes faltando 30 dias para o evento”.

Aqui, Tonico toca em um problema estrutural do setor: “a incapacidade de separar o momento de pensar do momento de entregar”.

  • momento de criação
  • momento de execução

Misturar esses tempos compromete resultados. A analogia é direta: “Esse ponto é relevante porque confronta um vício do setor: a valorização excessiva da ideia em detrimento da entrega”.

Eventos como plataformas híbridas de experiência

Os projetos atuais da NextGen revelam um direcionamento interessante: a fusão entre físico e digital (“fingital”).

Exemplos como: competições que combinam jogos digitais e esportes físicos e eventos de tecnologia aplicada a nichos específicos (pets, gastronomia, governo), “indicam uma tentativa de reposicionar o evento como plataforma de experimentação. Não se trata apenas de conteúdo, mas de vivência aplicada”.

Velocidade não substitui experiência

Em um ambiente cada vez mais orientado à agilidade, ele introduz um contraponto necessário: “A velocidade é muito boa na reta. Na curva você tem que frear, senão você capota”.

A metáfora é simples, mas precisa. O excesso de velocidade, sem leitura de contexto, não gera inovação — gera erro.

Cultura organizacional: o que está na parede não basta

Ao abordar cultura, Tonico desmonta um dos discursos mais recorrentes do mundo corporativo: “Você tem três culturas numa empresa: a que você quer, a que está na parede e a do dia a dia”.

E reforça: “Se você não aplicar no dia a dia, não adianta escrever bonito”. A crítica aqui é estrutural: muitas organizações operam com uma cultura declarada que não se sustenta na prática — e isso compromete qualquer estratégia.

Eventos presenciais: ainda insubstituíveis

No debate sobre formatos, ele não relativiza: “evento digital é chato pra caramba. O presencial é infinitamente melhor”. A defesa do encontro físico está ancorada na experiência humana: “nenhuma tecnologia vai substituir um bom mergulho no mar”. A analogia reforça um ponto central: eventos são, antes de tudo, experiências sensoriais e relacionais — algo que o digital ainda não consegue replicar integralmente. Inteligência artificial: entusiasmo desproporcional ao tratar de tecnologia, Tônico adota uma postura crítica: “existe uma superestimação da inteligência artificial”.

Durante a entrevista, Sergio Junqueira introduz uma leitura histórica que amplia o debate sobre inovação e inteligência artificial.

A tese é direta: grandes ciclos de transformação tecnológica seguem um padrão recorrente — expansão acelerada, colapso financeiro e consolidação estrutural.

Exemplos clássicos:

• Ferrovias (EUA) - Expansão massiva → quebra de investidores → criação da infraestrutura logística que viabilizou novas cadeias econômicas.

• Telégrafo (EUA) - Colapso financeiro → permanência da rede → surgimento de empresas globais de informação.

• Internet (anos 2000) - Bolha especulativa → quebra generalizada → base tecnológica que sustentou gigantes como Google e Meta.

Aplicação direta à inteligência artificial: a infraestrutura tende a permanecer mesmo quando parte relevante dos investimentos não se sustenta.

Conclusão: Nem toda inovação gera retorno imediato — mas quase toda deixa legado estrutural.


Tonico aponta um desalinhamento relevante: “Tem empresa que nem digitalizada está e já quer implementar IA”. A observação é pertinente. O mercado, em muitos casos, salta etapas — adotando discurso tecnológico sem base operacional. “Nem todas as empresas estão prontas para esse salto”.

O que diferencia quem vai sobreviver

Na síntese final, ele retorna ao essencial: “As empresas que vão prosperar são as que entendem pessoas”. E conclui com uma definição precisa do próprio setor: “Eventos são comunidades. E comunidades são pessoas”.

Ao tratar de liderança, Tonico evita modelos fechados. Para ele, não existe receita de bolo. O papel do líder é interpretar contexto e tomar decisões com base em:

  • experiência
  • timing
  • sensibilidade

A analogia com uma corrida de Fórmula 1 sintetiza bem essa visão:

  • acelerar sempre não funciona
  • é preciso saber quando frear

Essa leitura reforça um ponto relevante: “liderança em eventos é menos técnica e mais situacional”.

Cultura organizacional: entre discurso e prática

A leitura de Tonico Novaes é consistente e baseada em experiência real. Mas há um ponto crítico: “O setor já entende boa parte desses conceitos — o problema continua sendo execução”.

Um dos trechos mais esclarecedores da entrevista está na distinção entre três tipos de cultura dentro de uma empresa:

  • cultura desejada
  • cultura declarada
  • cultura praticada

A divergência entre essas camadas é, segundo ele, onde muitas organizações falham. A solução proposta é direta:

  • dar voz real às pessoas
  • estimular participação
  • transformar erro em aprendizado

Sem isso, a cultura vira apenas narrativa corporativa.

Eventos presenciais seguem insubstituíveis. Apesar do avanço digital, Tonico é categórico: “eventos presenciais não têm substituto”. A experiência vivida — interação humana, convivência, intensidade — não pode ser replicada por tecnologia.

Ferramentas digitais podem complementar, mas não substituir. Essa posição vai na contramão de discursos mais radicais do período pós-pandemia — e se mostra alinhada com a retomada global do setor.

Essa mesma tensão aparece no próprio desenho do Fórum Eventos 2026, que acontece no Villa Blue Tree, nos dias 11 e 12 de maio que propõe sair da lógica de conteúdo para a construção de experiência.

A questão central, portanto, permanece: “não é mais sobre saber o que fazer”, “é sobre conseguir fazer”. Se essa virada não acontecer, o risco é claro: eventos continuarão sofisticando o discurso — sem alterar o impacto.

Conclusão: quem entende pessoas, sobrevive

Ao final, a síntese é simples — e dura: “empresas que não entendem pessoas deixam de ser relevantes”. Mais do que tecnologia, formato ou tendência, o diferencial competitivo está na capacidade de:

  • compreender comportamentos
  • integrar perfis distintos
  • criar ambientes de colaboração

Em um setor que se define por encontros, ignorar o fator humano não é apenas um erro — é uma sentença de morte.