Sergio Junqueira Arantes entrevista Andreia Brum Palestrante no Fórum Eventos 2026

Com quase três décadas de atuação no mercado, Andreia Brum construiu uma trajetória que se confunde com a própria evolução da profissionalização dos eventos associativos no Brasil. Publicitária de formação, encontrou nos eventos da área da saúde seu campo de especialização e, desde então, consolidou uma carreira marcada por gestão estratégica, visão sistêmica e relações de longo prazo.
Andreia Brum

PLANEJAMENTO, FIDELIZAÇÃO E MULTIGERAÇÕES: ANDRÉA BRUM ANALISA OS DESAFIOS DA NOVA GESTÃO DE EVENTOS ASSOCIATIVOS E MÉDICOS

Com quase três décadas de atuação no mercado, Andreia Brum construiu uma trajetória que se confunde com a própria evolução da profissionalização dos eventos associativos no Brasil. Publicitária de formação, encontrou nos eventos da área da saúde seu campo de especialização e, desde então, consolidou uma carreira marcada por gestão estratégica, visão sistêmica e relações de longo prazo.

Palestrante do Fórum Eventos 2026, que acontece nos dias 11 e 12 de maio no Villa Blue Tree, Andreia Brum traz ao debate um tema central para a indústria: como estruturar eventos com visão integrada, previsibilidade, eficiência financeira e experiência memorável.

Na entrevista ao Portal Eventos, Andréa fala sobre planejamento, orçamento, riscos, fidelização, eventos médicos, multigerações e as transformações do mercado associativo.

Sua primeira afirmação já define sua linha de pensamento: “Na verdade, é uma jornada”. A frase resume sua visão sobre eventos: não são projetos fragmentados, mas processos vivos, interdependentes e contínuos.

O planejamento começa no conceito

Para Andreia, o erro de muitos organizadores está em reduzir planejamento a cronograma e logística.

O ponto de partida, segundo ela, é conceitual. “Que linha conceitual a gente vai seguir?”. E isso passa por narrativa, “que história nós vamos contar naquela edição?”.

O storytelling, aqui, não aparece como recurso estético, mas como eixo estruturante. Especialmente em eventos recorrentes, como congressos e encontros associativos, a diferenciação é estratégica. “A cada ano a gente tem que fazer um evento com diferenciais consistentes”.

O conceito é relevante porque desloca o evento do campo operacional para o campo da identidade.

Planejamento é macro e micro

Andréa reforça que planejamento não é uma etapa, mas uma cultura, “essa palavra planejamento, ela é a base do sucesso de um evento”.

Mas faz uma distinção importante. Não basta o planejamento macro. É necessário construir micro planejamentos. Ela detalha as múltiplas camadas: inscrições, comercial, científico, temas livres, logística e comunicação.

Essa visão sistêmica é decisiva em eventos complexos, sobretudo associativos. Porque um evento não falha apenas por um grande erro. Frequentemente falha pela soma de pequenos descuidos.

Comunicação e tráfego pago: a nova engenharia de conversão

Um dos trechos mais pragmáticos da entrevista aparece quando Andréa aborda comunicação. Ela mostra como o marketing digital deixou de ser acessório, “temos de ser conhecedores de tráfego pago”.

A razão é objetiva: conversão. “Uma conversão assertiva que atinja os nossos resultados”. Mas há uma observação estratégica importante: o digital não vende apenas inscrições. Também fortalece reputação. “Conseguimos melhorar as vendas de patrocínio”.

E cita o LinkedIn como ferramenta relevante para B2B, especialmente no ambiente médico.

Custos: o outro lado da meta

No setor, fala-se muito em receita. Andréa chama atenção para o outro lado, “não podemos tirar o olhar cuidadoso dos custos”. É um ponto crítico. Crescimento de receita sem controle de custos não garante resultado.

Ela compartilha um caso concreto de inteligência em contratação. Ao unificar dois congressos no mesmo destino para contratação de audiovisual, conseguiu: “30% de desconto em um evento e 25% de desconto no outro".

Esse tipo de racionalização revela um aspecto pouco glamourizado da gestão de eventos: eficiência é tão importante quanto criatividade.

Gestão de riscos: planejamento e saúde mental

Talvez um dos trechos mais honestos da entrevista esteja na abordagem sobre imprevistos. Andréa desmonta a ideia de que risco é exceção, “eles acontecem no pré-evento e acontecem durante o evento”.

E traz um tema raramente tratado no setor: saúde mental do gestor. “Nós, como gestores de eventos, temos de ter uma saúde mental muito bem cuidada”. A conexão é direta.

Melhores decisões dependem de equilíbrio emocional, “mitigar, a gente mitiga com planejamento, e resolve com tranquilidade”. É um ponto importante numa indústria historicamente marcada por estresse extremo.

Controle constante: o evento se governa no detalhe

Andréa volta ao planejamento, mas acrescenta uma camada decisiva: controle. “Não adianta só tu dizer que tem planejamento”. É preciso monitoramento permanente. Ela fala em “pit stops constantes”. Reuniões semanais. Imersões quinzenais com clientes. Correções de rota.

Aqui aparece um conceito essencial: planejamento sem governança é apenas intenção.

O diferencial dos eventos médicos

Especialista no segmento, Andréa explica o que diferencia os congressos médicos.

Primeiro: maturidade. O cliente conhece o processo. A indústria farmacêutica, patrocinadora histórica do setor, tem forte profissionalização. A comissão organizadora também, “já sabe o que quer”.

Isso reduz tempo de alinhamento. Enquanto outros segmentos exigem didática inicial, o evento médico já nasce em estágio avançado, “a gente já inicia do ponto de partida”.

Essa observação é importante porque explica por que os eventos médicos são, historicamente, referência em processos.


Itinerância ou fixação? O dilema dos congressos nacionais

Ao abordar a geografia dos eventos médicos, Andréa mostra que não existe fórmula única. Alguns congressos mantêm itinerância nacional. Outros elegem destinos estratégicos. E outros fixam sede.

A decisão depende de variáveis concretas: malha aérea, hotelaria, fornecedores e maturidade do destino. “Sempre que chegamos num destino que a cadeia é eficiente, conseguimos fazer entregas mais eficientes” .

A análise é pragmática. Destino não é apenas cenário. É infraestrutura de execução.


O pós-pandemia consolidou o híbrido

Andréa é clara ao analisar o cenário pós-pandemia, “voltamos para o presencial sempre com uma ponta de digital”. Mas esse digital mudou de função. Hoje ele complementa. Amplia alcance. Estende valor.

Um exemplo é o conteúdo on-demand, “as pessoas não conseguem assistir a todas as salas”. Por isso, o acervo posterior ganhou relevância. E, segundo ela, tem forte procura.

Tem, tem uma procura grande”. Isso muda a lógica do evento: ele deixa de terminar no encerramento.


Relações longevas: fidelização como ativo estratégico

Andréa dedica parte importante da entrevista ao tema da fidelização. Para ela, longevidade comercial não nasce apenas de competência técnica. Nasce de valores, “é tudo parte da questão dos princípios, do caráter das relações”.

Ela explica que, quando existe alinhamento entre cultura organizacional e valores institucionais, a tendência é a continuidade. E isso gera ganhos para todos: entidade, patrocinadores e organizadores.

A fidelização reduz curva de aprendizagem. Preserva histórico. E acelera o planejamento da edição seguinte.


O fim da hegemonia do organizador local

Historicamente, eventos itinerantes muitas vezes contratavam operadores locais. Andréa explica que isso mudou, “essa tendência mudou”.

O motivo é simples: segurança na entrega.

"A preferência atual privilegia operadores que conhecem profundamente o projeto, independentemente da cidade. O valor migrou do vínculo local para a memória operacional. Isso é um movimento importante na profissionalização do setor".


A internalização pelas associações: ameaça ou transformação?

Outro fenômeno crescente é a internalização de parte da produção pelas próprias entidades. Andréa reconhece isso como uma transformação estrutural, “é um ponto de transformação do nosso mercado”.

Inscrições, comercial e científico muitas vezes já estão internalizados. O organizador passa a atuar de forma parcial. E precisa aprender a integrar, “nós temos que nos reinventar”.

É uma mudança relevante no modelo de negócio do setor.


Cinco gerações no mesmo evento

No encerramento, Andréa aborda talvez o maior desafio contemporâneo dos eventos associativos: a convivência multigeracional, “num congresso a gente atende todas essas gerações”.

Do médico sênior ao estudante. Do analógico ao digital. Do bloco de notas ao aplicativo. Sua solução é integração de linguagens, “você tem que ter o aplicativo, assim como você tem que ter o bloco e a caneta”.

Mas há um ponto interessante. Ela observa o retorno do analógico. “O analógico, hoje em dia, está voltando com muita força”. Não apenas pelos mais velhos. Mas pelos mais jovens, exaustos das múltiplas telas. Esse diagnóstico é importante.

A inovação nem sempre está na tecnologia. Às vezes está no equilíbrio.


O memorável é o que toca

Ao final, Andréa sintetiza aquilo que parece orientar sua prática profissional, “o quanto que temos que pensar na experiência do usuário”. E amplia: “como traduzimos a palavra memorável?”.

A pergunta é poderosa. Porque desloca o evento do campo da entrega para o campo da lembrança. No fim, não basta organizar bem. É preciso permanecer. Na memória. Na percepção. E, como Andréa Brum, palestrante no Fórum Eventos 2026, dias 11 e 12 de maio, no Villa Blue Tree, sugere, no coração do participante.