Rotas, inteligência e sustentabilidade marcam terceiro dia da Arena Conexões na Equipotel 2026

Programação aproximou poder público, produtores, academia e mercado em debates sobre desenvolvimento regional, gestão, formação profissional e novas demandas do viajante
Marcelo Picka Van Roey, Conselheiro da Resorts Brasil e Diretor-Geral dos Hotéis-Escola Senac — Grande Hotel Campos do Jordão e Grande Hotel São Pedro; Ana Biselli Aidar, Secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo e, Juliana Salles, Diretora Executiva da Resorts Brasil

O terceiro dia da Arena Conexões, na Equipotel 2026, ampliou o debate sobre o desenvolvimento sustentável do turismo e da hospitalidade, reunindo representantes do poder público, produtores, academia e mercado. A programação desta quinta-feira (17) abordou desde a criação de rotas turísticas e a valorização da produção regional até o uso de dados na gestão, formação de profissionais e sustentabilidade como parte da experiência do viajante.

A abertura reuniu Ana Biselli, da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, e Marcelo Picka, conselheiro da Resorts Brasil e diretor-geral dos Hotéis-Escola Senac — Grande Hotel Campos do Jordão e Grande Hotel São Pedro, em uma conversa sobre o papel das rotas na conexão entre destinos, produtores e empreendimentos turísticos. Ana apresentou o trabalho desenvolvido em mais de 20 rotas e destacou a necessidade de integrar planejamento, iniciativa privada e população. “Sem planejamento, a gente não consegue ter rotas adequadas, conectadas e que vão levar o produto certo ao consumidor certo. Sem parceria público-privada, as rotas não funcionam e, sem as pessoas, a gente muito menos consegue se conectar.”

A valorização da identidade regional também esteve no centro da abertura. “Uma das questões que a gente tem valorizado bastante dentro da Secretaria é trabalhar experiências autênticas. E as experiências autênticas estão conectadas à identidade daquela região, e a identidade daquela região passa muito pelos produtores locais”, afirmou Ana.

Marcelo levou a perspectiva dos meios de hospedagem para a discussão e ressaltou o potencial de hotéis e resorts como pontos de conexão entre hóspedes e produtores. “Quanto mais a gente conseguir conectar o nosso hóspede com os vinhos de Santa Maria e com os outros produtos regionais, a gente consegue mudar o patamar da experiência e proporcionar uma experiência real de algo local e, além de tudo, promover e desenvolver a localidade.”

Rotas aproximam produtores e hospitalidade

O primeiro painel, “Rotas que Conectam: aproximando destinos, produtores e oportunidades”, foi mediado por Christine Grecco, diretora técnica da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, e reuniu Célia Carbonari, proprietária da Vinícola Santa Maria; Daniele Hummel, idealizadora da Cabanha Campestre 53; e Meiri Cardoso, proprietária da Fazenda Atalaia. Os casos mostraram como vinhos, queijos e outros produtos artesanais podem integrar a experiência turística e fortalecer a relação entre produtores, hotéis, pousadas e restaurantes.

Célia destacou a importância das rotas para ampliar a visibilidade de pequenos produtores, inclusive daqueles que estão fora dos circuitos turísticos mais conhecidos. Daniele abordou a combinação entre produção artesanal, sustentabilidade e turismo rural, enquanto Meiri apresentou a experiência da Fazenda Atalaia na integração entre patrimônio, produção de queijos, gastronomia e turismo. “O nosso estado é muito rico, muito abençoado, muito diversificado”, afirmou Christine.

Academia e mercado discutem dados, formação e liderança

No painel “Crescimento Sustentável do Turismo e o Papel das Instituições de Ensino”, Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora na área de turismo urbano na USP, mediou a conversa com Artur Motta e Vanessa Camargo, docentes da FGV, e Márcia Akemi, coordenadora do Curso Superior de Tecnologia em Hotelaria no Senac. O encontro discutiu como dados, formação profissional e desenvolvimento de lideranças podem acompanhar o crescimento do turismo e ajudar o setor diante dos desafios de atração e retenção de profissionais.

Vanessa apresentou a parceria entre FGV e Resorts Brasil no Radar Resorts Brasil, que consolida indicadores de desempenho dos associados e oferece referências para a tomada de decisão. Márcia destacou a transformação da formação em hotelaria, hoje mais atenta a competências de relacionamento, hospitalidade e liderança, enquanto Artur apresentou o programa de formação desenvolvido pela FGV em parceria com a Resorts Brasil, aproximando conhecimento acadêmico e desafios vividos pelos gestores.

Sustentabilidade percebida na experiência

Na palestra “Sustentabilidade que gera valor: Da prática à experiência do viajante”, Marina Figueiredo, presidente executiva da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), apresentou tendências observadas pela entidade para mostrar como práticas sustentáveis podem ser traduzidas em atributos efetivamente valorizados pelo turista, como natureza preservada, gastronomia autêntica, produção local, tranquilidade, exclusividade e experiências conectadas ao território.

“Ele quer sustentabilidade mesmo sem saber que quer. Ele quer o que a sustentabilidade pode gerar para ele e melhorar a experiência dele”, afirmou Marina.

A executiva também chamou atenção para a necessidade de incorporar a sustentabilidade desde a concepção dos produtos e das operações e relacionou o tema à adaptação às mudanças climáticas. Segundo Marina, alterações no clima já exigem que o setor repense atividades, infraestrutura e protocolos para preservar a qualidade da experiência. “Quando a gente fala hoje de gestão climática, não é apenas falar de sustentabilidade. A gente precisa entender que isso é falar de gestão de risco, de continuidade das operações e de experiência.”

No painel “Cases de ESG e inovação no Turismo e Hotelaria”, Caio Calfat, conselheiro na ADIT Brasil e diretor geral na Caio Calfat Real Estate Consulting, e Luciana Kuzuhara, gerente sênior de desenvolvimento de negócios na Wyndham Hotels & Resorts, discutiram como ESG pode ser incorporado desde a construção até a operação dos hotéis. Caio ressaltou que práticas sustentáveis devem ser entendidas como investimento na viabilidade e no valor do empreendimento, com benefícios que podem aparecer ao longo do tempo também na fidelização dos hóspedes.

Luciana apresentou exemplos do programa Wyndham Green, entre eles o Wyndham Gramado Termas Resort & Spa, onde, segundo os dados apresentados, houve 70% de economia em emissões de carbono e redução de 60% no uso de gás com biomassa. Como terceiro exemplo, destacou a estação de tratamento de esgoto, que permite o reúso da água em vasos sanitários e irrigação e teria gerado 71% de economia de insumos.

No painel “Soluções concretas para a agenda ESG”, Cássio Garkalns, CEO da GKS, apresentou uma metodologia de jornada de maturidade que diagnostica empresas e destinos, compara seu desempenho com referências de mercado e identifica prioridades para a construção de planos de ação. A ferramenta combina indicadores, benchmarks e inteligência artificial para orientar soluções de maior impacto e viabilidade. “O objetivo do nosso trabalho é estimular a evolução e o desenvolvimento. A gente trabalha com pessoas, com negócios e também com territórios”, destacou Cássio.

Janaína Storfe, responsável pela área de ESG da BeFly, mostrou como a sustentabilidade vem sendo incorporada à estratégia comercial e à cadeia de fornecedores do grupo. Entre as iniciativas, destacou a parceria com a GKS para avaliar a maturidade ESG de fornecedores, identificando oportunidades de melhoria e estimulando sua evolução. “ESG faz parte do negócio, ele é comercial. Eu não preciso falar de mudanças climáticas ou crise social para mostrar a importância de que a minha cadeia de valor consiga entregar”, afirmou.

Fernando Beltrame, CEO da Eccaplan, apresentou soluções para mensurar, reduzir e compensar emissões de carbono no turismo, destacando o uso de indicadores como ferramenta de gestão, transparência e relacionamento com o hóspede. Entre os cases, citou a BeFly, que, segundo sua apresentação, esteve entre os sete projetos selecionados nacionalmente para integrar um guia ESG da Embratur, tendo o cálculo e a neutralização de emissões entre as práticas reconhecidas. Também apresentou iniciativas de estadia neutra, que permitem calcular e compensar o impacto da hospedagem. “Um turismo preparado para o futuro é aquele que conhece seus impactos, incorpora a gestão dos indicadores às decisões e transforma sustentabilidade em estratégia de negócio”, destacou.

Marcel Bianchi, fundador e CEO da ArchMidia, apresentou o Wi-Fi como um ativo que pode ir além da conectividade e gerar valor para a operação hoteleira. A partir dos dados de uso, respeitando as exigências de governança e proteção de dados, hotéis podem compreender fluxos e comportamentos dos hóspedes, dimensionar equipes, realizar pesquisas durante a estadia e criar novas oportunidades comerciais. “O Wi-Fi não é mais uma cortesia. Ele é efetivamente um pilar necessário para a experiência do nosso viajante”, afirmou Marcel.

Tatiana Pacheco, COO da ESG Pulse, encerrou as apresentações destacando como critérios ESG e a rastreabilidade da cadeia de fornecedores vêm ganhando espaço nos processos de homologação e nas relações comerciais da hotelaria. A executiva ressaltou a importância de comprovar práticas socioambientais por meio de indicadores, evidências e auditorias independentes, reduzindo riscos e fortalecendo a relação entre hotéis, fornecedores e clientes corporativos. “O risco do terceiro é o nosso risco também, é o risco da empresa também”, afirmou.

Encerrando a programação, foram anunciados os vencedores do concurso realizado entre produtores que integram a cadeia do turismo do Estado de São Paulo, destacando-se em sua categoria: o Queijo do Requeijão Delicia Caipira, do Sítio Horizonte Azul, da cidade de Marília e, o Café do Café da Marvada, do Cafezal em Flor, situado em Monte Alegre do Sul.


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