Rock in Rio-último dia-Eu fui

Minha experiência no Rock in Rio no último domingo.Pontos positivos e negativos.Sugestões para o próxomo Festival

Hoje,quero conversar com vocês sobre minha ida ao Rock in Rio ...

Fui ao último dia do Rock in Rio disposto a viver o festival, mas também, inevitavelmente, a observá-lo com os olhos de quem há décadas trabalha com turismo, hospitalidade e grandes eventos. A primeira impressão foi excelente: acesso rápido, check-in eficiente e entrada organizada. A Cidade do Rock impressiona pela tecnologia, cenografia e capacidade de criar experiências. O espetáculo Ecco, combinando luz, movimento e música, confirma que o Rock in Rio deixou há muito de ser apenas uma sucessão de shows para se transformar numa poderosa indústria de entretenimento.

A programação reuniu nomes de forte apelo popular. Ivete Sangalo, presença recorrente e quase uma tradição do festival, mostrou novamente seu carisma e domínio das grandes plateias. Talvez justamente por figurar em tantas edições, senti falta de alguma novidade capaz de romper uma fórmula já conhecida. A Banda Calypso trouxe a força de seu repertório popular e reafirmou a diversidade musical de um festival que há muito ultrapassou as fronteiras do rock. No cenário internacional, minha agradável surpresa foi Halsey, artista que eu pouco conhecia. Sua voz, presença de palco e performance me conquistaram. Um grande festival também deve servir para isso: permitir descobertas.

Mas foi no Espaço Favela que encontrei a alma da noite. Dennis DJ fez o público dançar — e eu dancei como há muito não dançava em um evento. Havia ali uma energia espontânea, uma mistura de gerações, ritmos e histórias profundamente carioca. A homenagem a Mr. Catra acrescentou memória e identidade à apresentação. E saí dali com uma provocação: por que o Espaço Favela ainda não é um dos palcos principais do Rock in Rio? Não como concessão ou gesto protocolar de inclusão, mas porque seus artistas, sua música e seu público já conquistaram centralidade na cultura brasileira.

Nem tudo, entretanto, esteve à altura do espetáculo. A queima de fogos das 21h30, devo confessar, decepcionou. Faltaram criatividade, surpresa e emoção. Para uma marca que fez do impacto visual uma de suas assinaturas, esperava mais. No Rock in Rio, não basta iluminar o céu; é preciso provocar encantamento. Nas lojas oficiais encontrei boa diversidade de produtos e uma competente exploração da marca, mas preços elevados e dificuldade para encontrar peças no tamanho GG. Parece detalhe, mas não é. Se o festival celebra diversidade, ela também deve chegar às araras.

A chuva revelou uma fragilidade mais preocupante. Poças d'água e dificuldades de circulação não combinam com um evento dessa envergadura. Chuva no Rio de Janeiro não é surpresa. Drenagem, pavimentação e circulação precisam receber a mesma atenção dedicada aos telões e efeitos especiais. Não se pode ser extraordinário no palco e improvisado no chão. No Gourmet Square, a concentração de pessoas tornou o acesso quase impossível em determinados momentos, enquanto muitos visitantes acabavam sentados no chão. Uma experiência gastronômica diferenciada exige também conforto, circulação, assentos e organização.

Em contrapartida, faço questão de elogiar os banheiros. Mesmo submetidos a uso intenso durante horas, encontrei-os sempre limpos e bem cuidados. Em uma operação desse porte, isso revela planejamento, equipes eficientes e atenção ao público. É um daqueles detalhes que parecem elementares até encontrarmos um evento em que não funcionam.

A sinalização e a informação na saída, porém, precisam melhorar. Percebi desinformação inclusive entre alguns agentes da Guarda Municipal presentes. Não questiono a importância de seu trabalho, mas profissionais em contato direto com milhares de visitantes deveriam receber previamente orientações sobre acessos, saídas, transportes e pontos de referência. Quem veste um uniforme diante de um visitante torna-se também um ponto de informação da cidade. Orientar, em um megaevento, é acolher e também proteger.

Essa talvez seja a contradição que mais me chamou a atenção: o Rock in Rio domina o extraordinário, mas ainda tropeça em aspectos básicos. Faz o público olhar para cima diante de palcos monumentais, mas nem sempre cuida com a mesma precisão do chão onde ele pisa, do lugar onde se senta ou da informação de que precisa para ir embora. A poça, a falta de assento, o acesso congestionado e a sinalização insuficiente também fazem parte do espetáculo — embora ninguém tenha comprado ingresso para vê-los.

Nada disso diminui a importância do Rock in Rio. O festival movimenta turismo, hotelaria, gastronomia, transportes e serviços, gera empregos e projeta o Rio de Janeiro para o mundo. Justamente por sua força, pode e deve ser cobrado. Um megaevento não termina no último acorde: termina quando seu público consegue voltar para casa com conforto, informação e segurança.

Eu fui. Caminhei, observei, enfrentei a chuva, desviei das poças, visitei as lojas, assisti aos fogos, descobri Halsey e procurei a saída. Mas, sobretudo, dancei. Dancei com Dennis DJ no Espaço Favela e ali encontrei meu melhor momento. Entre tanta tecnologia, cenografia e investimento, foi justamente naquele espaço que encontrei algo que dinheiro algum consegue fabricar: alma.

Para o próximo Rock in Rio, deixo uma provocação: façam do Espaço Favela um dos grandes palcos do festival. Sua música e seu público já conquistaram esse lugar. Se o Rock in Rio nasceu para derrubar fronteiras pela música, talvez esteja na hora de derrubar também algumas fronteiras dentro da própria Cidade do Rock. Porque a grandeza de um festival não está apenas no tamanho de seus palcos, mas na capacidade de emocionar, acolher e fazer com que o público queira voltar.

Bayard Boiteux

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