Os números nunca foram tão grandes. A representatividade, porém, continua pequena. O Setor de Eventos precisa transformar sua força econômica em força institucional. E, para isso, não precisa criar mais uma entidade. Precisa fortalecer uma que já existe: a CBIE — Câmara Brasileira da Indústria de Eventos.
O Setor de Eventos brasileiro vive um dos melhores momentos de sua história.
Cresce, profissionaliza-se, gera empregos, arrecada impostos, movimenta cidades, ativa dezenas de cadeias econômicas e produz negócios, conhecimento e desenvolvimento.
Os números impressionam.
A representatividade política e institucional, porém, não acompanha essa dimensão.
Temos cerca de uma dúzia de entidades nacionais importantes. Elas cumprem papéis relevantes, defendem seus associados e representam diferentes segmentos.
Mas representam segmentos do Setor de Eventos.
Não o setor como um todo.
E aí está o problema.
Promotores de feiras têm suas demandas. Organizadores de congressos, as suas. Centros de convenções, montadoras, fornecedores, agências, empresas de entretenimento e live marketing também.
É natural.
Mas Reforma Tributária, legislação trabalhista, crédito, segurança jurídica, formação profissional, sustentabilidade, infraestrutura, internacionalização, estatísticas, relações governamentais e presença na grande mídia são pautas transversais.
Quem fala por elas?
Quando muitas entidades se apresentam isoladamente, com discursos, prioridades e interlocutores diferentes, a força do conjunto se dispersa.
Fragmentação institucional produz fragmentação política.
E isso não combina com a dimensão econômica alcançada pelo setor.
OS NÚMEROS MUDARAM A CONVERSA
O III Dimensionamento Econômico do Setor de Eventos registrou R$ 813,5 bilhões em faturamento. Em valores atualizados, isso representa crescimento real de 355,9% em relação ao primeiro Dimensionamento, 20 anos atrás.
E esse número não expressa toda a economia dos eventos brasileiros. Eventos de rua, grandes festas populares, competições esportivas e parcela importante do universo do agronegócio não foram incorporados à mensuração. Quando forem, é perfeitamente plausível que estejamos falando de um setor que movimenta mais de R$ 1 trilhão por ano.
Mas os R$ 813,5 bilhões já bastam para demonstrar a dimensão econômica alcançada.
Há outro dado ainda mais eloquente:
R$ 133,9 bilhões em impostos gerados em 2024.
Portanto, quando o Setor de Eventos reivindica políticas públicas, crédito, infraestrutura ou segurança jurídica, não está pedindo favores.
Está discutindo política econômica em nome de um setor que devolve quase R$ 134 bilhões por ano ao Estado brasileiro.
O MUNDO JÁ ENTENDEU A IMPORTÂNCIA DOS EVENTOS
O estudo global divulgado em 2026 pelo Events Industry Council, em parceria com a Oxford Economics, mostra a dimensão mundial dessa atividade. Em 2025, os eventos de negócios reuniram 1,65 bilhão de participantes e geraram US$ 1,3 trilhão em gastos diretos. Considerados os impactos ampliados, chegaram a US$ 3,1 trilhões em vendas, US$ 1,8 trilhão em PIB e 24,2 milhões de empregos.
No segmento de feiras e exposições, a UFI e a Oxford Economics estimaram US$ 178,5 bilhões em gastos diretos e US$ 443,6 bilhões em produção econômica total. Foram quase 318 milhões de visitantes e 4,7 milhões de expositores.
Eventos não são uma atividade acessória. São infraestrutura econômica.
São Paulo oferece mais uma demonstração.
O Barômetro Eventos B2B 2025, da UBRAFE com a São Paulo Turismo, registrou 1.511 eventos de grande porte, crescimento de 22% em relação ao ano anterior. Foram cerca de 8 milhões de participantes e impacto estimado de R$ 14 bilhões na cadeia da hospitalidade.
E estamos falando de uma cidade e de apenas uma parcela do universo dos eventos.
ECONOMICAMENTE GRANDES. POLITICAMENTE FRAGMENTADOS.
Um setor com essa dimensão deveria ter presença permanente no noticiário econômico, nos grandes jornais, na televisão e, principalmente, nas mesas onde são discutidas políticas públicas.
Isso ainda não acontece na proporção necessária.
E não podemos responsabilizar apenas governos ou imprensa.
Parte do problema está em nós.
Como esperar que o poder público e a sociedade enxerguem o Setor de Eventos como uma força econômica única se nós mesmos continuamos nos apresentando de forma fragmentada?
Temos bons interlocutores.
O que nos falta é uma interlocução comum.
OUTROS PAÍSES JÁ ENCONTRARAM ESSE CAMINHO
Não estamos propondo uma experiência inédita.
No México, o COMIR — Consejo Mexicano de la Industria de Reuniones congrega diferentes organizações do setor e tem entre seus objetivos justamente unificar sua voz perante o governo e a sociedade.
Nos EUA, o EIC - Events Industry Council reúne dezenas de associações representativas de diferentes segmentos dos eventos.
No plano mundial, o JMIC — Joint Meetings Industry Council reúne organizações como ICCA, UFI, IAPCO, AIPC, IFES, COCAL e outras importantes entidades internacionais.
Modelos diferentes, mas baseados no mesmo princípio: preservar as associações especializadas e, ao mesmo tempo, construir uma representação coletiva para as questões comuns.
É exatamente disso que precisamos no Brasil.
NÃO PRECISAMOS DE MAIS UMA ENTIDADE
Criar outra associação seria ampliar o problema.
As entidades existentes precisam continuar fortes, autônomas e responsáveis pela defesa de seus associados e de seus segmentos.
A solução já existe.
Chama-se CBIE — Câmara Brasileira da Indústria de Eventos.
Ela nasceu em 2011 como For/Eventos — Fórum Permanente do Setor de Eventos, criada justamente para articular entidades em torno de interesses comuns. Posteriormente transformou-se na CBIE.
Está hoje inativa.
Mas sua função talvez nunca tenha sido tão necessária.
A CBIE não deve disputar associados, patrocínios ou espaço com as entidades que a integram.
Não deve transformar-se em uma superassociação.
Deve ser a entidade das entidades.
O espaço em que as organizações nacionais preservam suas identidades, mas constroem posições comuns sobre os grandes temas transversais.
A CBIE não deve falar no lugar das entidades.
Deve permitir que, nas grandes questões nacionais, elas falem juntas.
JÁ FIZEMOS ISSO ANTES
O próprio setor oferece um bom precedente.
Quando a entidade que representava os centros de convenções brasileiros se desarticulou, alguns dos principais equipamentos começaram a estruturar uma nova organização.
Antes de concluí-la, surgiu uma questão simples: por que criar outra entidade se já existe uma capaz de incorporar esse segmento?
Os centros de convenções passaram a integrar a UBRAFE.
A UBRAFE se fortaleceu e os centros passaram a contar com uma estrutura institucional consolidada.
A lição permanece válida: quando podemos integrar, criar quase nunca é a melhor solução.
UMA CBIE PARA O SETOR QUE EXISTE HOJE
Reativar a CBIE, porém, não significa apenas voltar a realizar reuniões.
Será necessário estabelecer governança, prioridades e mecanismos claros de decisão.
Definir quais assuntos justificam uma posição coletiva.
- Acompanhar permanentemente Executivo e Legislativo.
- Produzir documentos de posição.
- Organizar dados econômicos.
- Relacionar-se com a imprensa.
Antecipar ameaças e oportunidades.
Em resumo: fazer política institucional de forma permanente.
O setor só mobiliza quando surge uma crise.
- Uma ameaça tributária.
- Uma nova regulamentação.
- Uma dificuldade trabalhista.
- Um projeto de lei inadequado.
Então procura Brasília, articula entidades e defende as posições atacadas.
Passado o problema, a mobilização diminui.
Esse modelo é insuficiente.
Representatividade não se improvisa. Constrói-se antes da crise.
O MOMENTO É AGORA
Estamos diante de um novo ciclo político.
Depois das eleições, novos governos, parlamentares, ministros e prioridades serão definidas.
É agora que o Setor de Eventos precisa ocupar seu espaço.
Não quando surgir a próxima ameaça.
Não quando precisar novamente apagar incêndios.
Agora.
É hora das entidades nacionais se sentarem à mesma mesa, definirem as grandes pautas comuns e construírem uma estratégia permanente de interlocução com governo, congresso e sociedade.
FICA O REPTO
O setor já demonstrou sua força econômica.
R$ 813,5 bilhões em faturamento.
R$ 133,9 bilhões em impostos.
355,9% de crescimento real nos últimos 20 anos.
E uma economia que, considerada em toda a sua extensão, caminha para ultrapassar R$ 1 trilhão.
A deficiência não é mais econômica.
É institucional.
- Temos empresas.
- Temos profissionais.
- Temos conhecimento.
- Temos entidades fortes.
- Temos números.
O que ainda não temos, na dimensão necessária, é uma voz coletiva proporcional à sua importância.
A estrutura existe.
Chama-se CBIE — Câmara Brasileira da Indústria de Eventos.
Que cada entidade continue defendendo seus associados e seu segmento.
Mas que a CBIE defenda o que pertence a todos.
A CBIE não deve concorrer com as entidades. Deve potencializá-las.
COMIR, EIC e JMIC mostram que representação especializada e representação coletiva podem — e devem — coexistir.
Um setor que se aproxima de R$ 1 trilhão não pode continuar sendo uma potência econômica com uma voz política fragmentada.
Quando o assunto for específico, que cada entidade fala por seu segmento.
Quando o assunto for o Setor de Eventos, precisam falar juntos.
Esse é o repto.

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