Os novos tempos obrigam o mercado MICE a inovar, criar valor e adicionar serviços

Rod Cameron, diretor de desenvolvimento internacional da IAPCO e diretor executivo do Centro de Convenções do Canadá desenvolveu sua palestra entorno de três pesquisas recentes: AIPC Member Survey, Tradeshow Week Survey e PCMA Planner Survey, que respectivamente mostraram a visão dos dirigentes dos centros de convenções e dos expositores e dos organizadores de eventos.

Questionados sobre o aumento ou diminuição de seus negócios no decorrer do ano passado em comparação com o ano passado, enquanto apenas 84% dos profissionais que responderam a AIPC Survey informaram ter sentido seus negócios crescerem em 2008, 52% percebem significativa piora em 2009.

Em conseqüência, 58% acham que os negócios em centros de convenções vão piorar, 35% que vão permanecer estáveis e apenas 7% mostram-se otimistas. Uma visível deterioração de perspectivas, se considerarmos que em 2008, 42% acreditavam que os negócios melhorariam e 46% que permaneceriam como estavam e apenas 12% estavam pessimistas.

Segundo a pesquisa realizada pela AIPC, o comportamento dos clientes mudou bastante depois da crise do final do ano passado. As principais alterações percebidas foram:

19,20% - Demora nas reservas e no fechamento dos negócios
18,90% - Negociações mais duras
16,80% - Redução dos gastos
16,10% - Alteração na receita de A&B (alimentos e bebidas)
15,20% - Redução nos serviços contratados
13,80% - Cancelamento de eventos

Finalmente, questionados sobre as perspectivas que tinham sobre os diferentes tipos de eventos, os dirigentes de centros de convenções mostraram-se muito pessimistas em relação aos eventos corporativos e razoavelmente otimistas em relação aos congressos.

Em pesquisa realizada em junho deste ano, o sistema expositor mostrou-se bastante pessimistas: 81% afirmaram ter reduzido sua programação de eventos em 2009 e 55% que continuariam a cortar ao longo dos próximos dois anos. 74% pretendem diminuir o espaço de exposição para cortar custos e 65% que já no ano passado tinham procurado reduzir seus custos.

Estas conclusões decorrem da intenção demonstrada por 84% dos participantes em feiras, 67% informando pretender participar de igual número de feiras e 17% de mais feiras. Apenas 16% acha que participará de menos feiras nos dois próximos anos.

Já quanto às perspectivas para os próximos cinco anos, 88% afirmaram que as feiras, congressos e convenções continuarão a ser muito importantes para o sucesso na área business-to-business, seja nos processos de pesquisa, seja no de compras.

A pesquisa da PCMA mostra um quadro mais desalentador. Em conseqüência do cancelamento ou adiamento de eventos previstos para 2009/2010 ocorreu uma perda de US$2,5 bilhões de dólares, sendo US$781 milhões referentes à locação de apartamentos.

Importante observar que a grande maioria dos pesquisados  (41%) considerou que a cobertura negativa da imprensa prejudicou mais do que as condições econômicas (37%) ou o enxugamento nos custos das empresas (22%).

A questão da imagem do segmento MICE segundo os pesquisados passou a ser um importante fator e acarreta um significativo risco financeiro na realização de eventos, sendo devastador para a imagem das empresas a realização de eventos considerados de luxo. Segundo Cameron, nos Estados Unidos ainda se vive a síndrome de Las Vegas.

Segundo a PCMA Survey, 56% as perspectivas para 2009/2010 dos profissionais pesquisados são piores se comparadas com 2008; 67% acham que o orçamento dos eventos em 2009 irá diminuir em relação a 2008 (corte médio de 23%) e 41% disseram que irão adiar, cancelar ou remarcar eventos previstos para 2009/2010.

A maioria dos entrevistados (53%) acha que os impactos continuarão a ser sentidos em 2010 e pretendem fazer um uso maior de métodos alternativos de reuniões, incluindo web meetings e teleconferências.

Importante observar que a pesquisa indicou uma queda no uso de acomodações de luxo e upscale da ordem de 50% nos próximos anos. A constatação pratica desta tendência já está levando as redes a redimensionar seu parque hoteleiro, privilegiando hotéis econômicos e middlescale.

Segundo o diretor do AIPC, Rod Cameron, a visão e as reações governamentais tem sido contraproducentes, decorrentes de uma política em que o medo prepondera sobre a lógica, determinando restrições a viagens e cancelamento de eventos, tudo isso decorrente de poucos compreenderem a importância do papel dos eventos no desenvolvimento econômico do país.

Apesar de tudo, Cameron não foi um arauto somente de más noticias. Segundo ele, também existem boas notícias:
• Já aparecem sinais de recuperação econômica em muitas áreas
• Poucos eventos promovidos por associações foram cancelados
• A maioria dos delegados espera manter sua participação nos eventos
• Expositores ainda vêem eventos e exposições como ferramenta fundamental em seus negócios
• Eventos e feiras vão desempenhar papel fundamental no crescimento econômico
• Mudanças na política governamental poderão ter grande impacto
• Temos uma oportunidade para demonstrar o valor de nossa indústria

Por isso, segundo Cameron devemos olhar para o futuro e perceber que existem importantes diferenças regionais e setoriais; que a diversidade dos negócios é sempre a melhor defesa; estamos resistentes, porém vulneráveis; os proprietários e a comunidade não entendem o que fazemos; necessitamos de uma maior compreensão, de apoio à importância do papel econômico dos eventos; mas nós mesmos não temos ainda capacidade de medir o valor papel dos eventos na economia.

Ainda segundo Rod Cameron os eventos estão sempre evoluindo e devemos estar atentos aos novos tempos em que eles terão complexidade crescente; sofrerão mudanças estruturais (redução da duração, freqüência etc.); haverá crescente necessidade de demonstrar seu valor e ênfase na medição de resultados; uma abordagem cada vez mais profissional na gestão dos eventos e, finalmente, no papel cada vez maior da internet e das novas tecnologias.

Mas devemos estar atentos para a questão da imagem dos eventos, afinal toda esta imagem negativa ressoou no público, 70% dos profissionais estão preocupados com “a imagem atual dos eventos” (PCMA) e necessitamos reencontrar nossa imagem, através de mais conteúdo, melhor valor e resultados mensuráveis. Os novos códigos da indústria farmacêutica já iniciaram um processo de renovação de suas praticas.

Já finalizando sua palestra, Cameron mostrou alguns imperativos da indústria de eventos: os organizadores serão desafiados por problemas financeiros e de recursos e, ainda assim, a prestarem melhores serviços; as negociações serão mais difíceis e haverá muitas renegociações; preços, contratos e formas de pagamento estarão em jogo; cada vez mais será necessária uma atitude de parceria, mas surgirão oportunidades para construir relacionamentos mais fortes e, finalmente, flexibilidade e transparência serão fundamentais.

Nas relações com os locais onde se realizam os eventos, ressaltou que a equação com os hotéis mudou; a expectativa dos proprietários necessita ser reajustada; a necessidade de enfatizar o amplo impacto econômico dos eventos e as relações com os convention bureaux precisam ser reexaminadas.

Concluindo o palestrante afirmou já ter visto muitas recessões, mas que esta foi diferente, pois a política do governo desempenhou um grande papel (regulamentação do resgates de prêmios, restrições de viagens etc.), a imagem dos eventos foi colocada em questão e aconteceu num momento em que a indústria estava evoluindo, buscando melhores alternativas tecnológicas disponíveis.

Respondendo sobre o que podemos esperar para os próximos doze meses, Cameron disse depender de negociações, pois muitos orçamentos já estão definidos; a performance dos eventos associativos proporcionará a estabilidade perdida pelos corporativos, mas a grande questão será: haverá publico? Tudo isso redunda numa grande quantidade de renegociações e algumas reservas adiadas.

Terminando sua palestra, ouvida atentamente por uma platéia de quase 500 profissionais, Rod Cameron deu um recado final, sobre o que devemos fazer para enfrentar o momento que a indústria de eventos atravessa: diversificar os negócios; trabalhar em conjunto na construção da prestação de serviços; adotar uma abordagem mais flexível nas negociações; inovar, criar valor, adicionar serviços; ajustar o valor da participação dos delegados nos eventos e apoiar a organização da indústria de eventos.
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O jornalista viajou pela GOL e hospedou-se no Aspen Towers a convite da IMPROTUR e da AOCA.