O futuro do Turismo e seus desafios

O Turismo e seu desenvolvimento.Visão geral de ações coordenadas para um futuro ordenado.Proposta de uma Pec de Turismo integrando União Estados Municípios.

O turismo do futuro começa com uma pergunta que não pode mais ser adiada: que tipo de desenvolvimento queremos construir para quem visita e, sobretudo, para quem vive nos destinos? Durante muito tempo, medimos o sucesso pelo número de visitantes, pela ocupação dos hotéis e pela quantidade de fotografias que circulam nas redes. Esses indicadores têm valor, mas não contam a história inteira. Um destino pode receber multidões e, ainda assim, conviver com serviços precários, moradores afastados dos benefícios e patrimônios ameaçados.

É hora de substituir a improvisação por compromissos verificáveis. O país precisa de um plano nacional de turismo com metas para dez anos, orçamento definido, responsabilidades distribuídas entre União, estados e municípios e prestação anual de resultados. A cada governo, as prioridades podem ser atualizadas; a política, porém, deve continuar. Sem planejamento de longo prazo, projetos começam com cerimônia e terminam antes de produzir efeitos.

Essa mudança precisa ganhar força constitucional. A Constituição já determina que União, estados, Distrito Federal e municípios promovam e incentivem o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico (artigo 180). Proponho uma PEC do Turismo para atualizar esse compromisso e torná-lo mais efetivo: o artigo 180 deve prever a elaboração de um Plano Nacional de Turismo decenal, construído em cooperação entre os entes federativos, com metas públicas, mecanismos de avaliação e atenção ao desenvolvimento regional, à sustentabilidade, à geração de trabalho e à preservação do patrimônio cultural e natural.

A proposta poderia determinar que o plano fosse revisto periodicamente, com participação de representantes do poder público, do setor privado, dos trabalhadores, das universidades e das comunidades. Também deveria exigir a divulgação de relatórios sobre resultados e recursos aplicados. Não se trata de constitucionalizar cada ação do setor, mas de garantir que o turismo tenha planejamento contínuo, coordenação entre governos e responsabilidade diante da sociedade.

O primeiro passo para cumprir esse compromisso é saber, com precisão, o que acontece nos destinos. Proponho a criação de um sistema público de indicadores que reúna dados sobre fluxo de visitantes, permanência média, gastos, empregos, sazonalidade, condições dos equipamentos turísticos e impacto sobre os moradores. As informações devem ser atualizadas e acessíveis a gestores, pesquisadores, empresas e comunidades. Decisões tomadas sem dados favorecem o improviso e dificultam a avaliação do dinheiro público.

O financiamento também precisa sair do terreno das promessas. Estados e municípios devem estruturar projetos para saneamento, mobilidade, sinalização, acessibilidade e recuperação de espaços de interesse turístico. A União pode apoiar essas iniciativas com critérios transparentes, priorizando destinos que apresentem planejamento, metas de execução e participação local. Recursos públicos precisam estar ligados a resultados, com acompanhamento e divulgação simples para a população.

Outro desafio central é a mobilidade. Não basta promover um lugar se chegar até ele é caro, demorado ou inseguro. É necessário integrar aeroportos, rodoviárias, portos, ferrovias e transporte urbano; melhorar a informação ao passageiro; ampliar a sinalização turística; e garantir ligações regulares entre os principais atrativos. Nos destinos, calçadas acessíveis, transporte público confiável e deslocamentos seguros devem fazer parte da experiência turística — e da vida cotidiana dos moradores.

A segurança merece uma política própria. Recomendo fortalecer o policiamento especializado em áreas de maior circulação turística, implantar protocolos de atendimento ao visitante, capacitar agentes públicos e criar canais de orientação em mais de um idioma. Os destinos também devem divulgar informações confiáveis sobre prevenção e atendimento. Segurança se constrói com presença, preparo, iluminação, mobilidade e resposta rápida.

A inovação será decisiva, desde que sirva às pessoas. Municípios podem oferecer mapas digitais atualizados e informações sobre transporte, horários, acessibilidade e serviços de emergência. Micro e pequenas empresas precisam de apoio para adotar ferramentas de reserva, pagamento e divulgação. A tecnologia deve facilitar a vida de quem visita e ampliar as oportunidades de quem trabalha no setor.

A formação profissional exige medidas concretas. Defendo programas permanentes de qualificação em idiomas, atendimento, gestão, cultura, acessibilidade, tecnologia e sustentabilidade, construídos com universidades, escolas técnicas e empresas. A capacitação deve alcançar trabalhadores já atuantes, jovens que procuram o primeiro emprego e empreendedores locais. Também é indispensável valorizar guias de turismo e profissionais que mantêm a experiência funcionando no cotidiano.

A sustentabilidade precisa orientar licenças, investimentos e limites de visitação. Cada destino deve identificar áreas vulneráveis, monitorar o uso de recursos naturais e estabelecer planos para períodos de alta demanda. Em locais sujeitos à pressão excessiva, cabe organizar os fluxos, distribuir as visitas ao longo do ano e proteger comunidades e patrimônios. Preservar praias, florestas, centros históricos e modos de vida é cuidar da base que mantém o destino vivo.

Também é preciso distribuir melhor os benefícios. Pequenos negócios, guias, artesãos, produtores culturais e trabalhadores locais devem participar da cadeia turística em condições dignas. Proponho linhas de crédito e assistência técnica para microempreendedores, compras locais em eventos e equipamentos públicos e programas que conectem produtores da região a hotéis, restaurantes e operadoras. A renda gerada pelo turismo precisa circular no território.

O Brasil pode combater a sazonalidade com calendários de eventos e produtos turísticos distribuídos ao longo do ano. Isso exige coordenação entre cultura, esporte, gastronomia, natureza e negócios, além de planejamento de transporte e hospedagem. Eventos devem deixar benefícios duradouros para a cidade e ser avaliados por seu impacto econômico, social e ambiental. A agenda não pode se resumir a grandes festas: experiências locais bem organizadas também atraem visitantes e fortalecem a identidade dos destinos.

A promoção internacional deve ser seletiva e acompanhada de condições para receber bem. Antes de investir em campanhas, é preciso identificar mercados prioritários, melhorar a conectividade aérea, preparar informações em outros idiomas e apoiar empresas brasileiras na comercialização de seus produtos. Divulgar um destino sem cuidar da infraestrutura e dos serviços pode frustrar quem chega e prejudicar a reputação do país.

O futuro do turismo não será definido apenas por novas rotas ou campanhas mais atraentes. Será definido pela capacidade de planejar, distribuir oportunidades, preservar identidades e cuidar das pessoas. O Brasil tem diversidade, criatividade e patrimônio para ocupar um lugar de destaque no mundo. Precisa transformar esse potencial em compromisso público, profissionalismo e resultados que possam ser medidos.

Turismo não é favor concedido a uma cidade nem festa passageira para visitantes. É trabalho, cultura, mobilidade, educação e convivência. Uma PEC do Turismo pode dar continuidade e consistência a esse esforço, desde que venha acompanhada de planejamento, recursos, participação e avaliação. O desenvolvimento do setor precisa ser sentido por quem chega e, principalmente, por quem fica.

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