O Hino Nacional merece respeito — e respeito exige planejamento

O fiasco do Hino Nacional no Maracanã com Belo e Alcione não foi culpa dos artistas — foi falha de planejamento. Ausência de um Cerimonial que está - em muitos casos - colocado de escanteio. Isso deve ser considerado falta grave e não mais um caso vergonhoso.

Tive que dar um tempo para digerir o último acontecimento do domingo, 31 de maio, que atentou por algo que há muitos anos estudo e pratico e que inclusive, me faz ocupar a cadeira de número 07 na Academia Brasileira de Cerimonial e Protocolo (ABCP).

A apresentação do Hino Nacional pelos cantores Belo e Alcione antes do amistoso da Seleção Brasileira contra o Panamá, no Maracanã, tornou-se um exemplo recente de como falhas técnicas e de coordenação podem comprometer um momento solene, ganhando projeção midiática por meio de memes e comentários de vergonha e revolta.

Foi notório que os artistas enfrentaram problemas de retorno de áudio (delay), ouvindo a base musical com atraso, o que prejudicou a sincronia entre suas vozes e os instrumentos. Porém é fato, também, que o descompasso evidente, demonstrou falta de ensaio prévio, inclusive, levando Alcione a interromper o canto em alguns trechos e Belo a tentar ajustar o equipamento durante a execução.

A execução do Hino Nacional é um dos momentos mais sensíveis e de ode ao patriotismo de qualquer cerimônia. Há protocolo específico, ou seja, leis que normatizam seu uso com respeito e legitimidade. Assim como a Bandeira, o Selo e o Brasão, o Hino é um símbolo que carrega a história e a representação da identidade de um povo.

Não é permitido, entre tantos atos, alterações na interpretação, comprometendo a melodia original e o tom da execução.

É importante lembrar que a Lei nº 5.700/1971 estabelece que não são permitidos arranjos vocais, artísticos ou instrumentais que modifiquem a estrutura oficial do Hino Nacional, salvo autorização expressa da Presidência da República.

Por isso, no lamentável episódio de domingo, é possível sinalizar que atitudes citadas abaixo foram negligenciadas pela organização.

• Testes de som rigorosos

• Ensaios prévios

• Verificação de equipamentos de retorno

• Coordenação entre artistas, equipe técnica e cerimonial

• Garantia de que o ambiente (como estádios, que têm acústica complexa) esteja preparado para apresentações ao vivo

Quando essas etapas falham, o impacto é imediato — e público. Não de forma edificante, mas sim, burlesco, um verdadeiro escárnio, que envergonha e altera o brilho de um evento.

A relevância do Cerimonial e Protocolo em eventos está diretamente ligada à organização, ao respeito institucional e à criação de uma experiência harmoniosa para o público. O cerimonial estabelece normas, ritos e formalidades que garantem ordem, clareza e fluidez, enquanto o protocolo define precedências, formas de tratamento, execução de hinos, composição de mesas e condutas oficiais.

Esses elementos asseguram que cada etapa do evento ocorra com profissionalismo, reforçando a imagem da instituição e evitando improvisos que possam gerar constrangimentos.

Tantos falam de novo cerimonial, de novas ordens, de modernidade, mas o que temos acompanhado é uma verdadeira sabotagem ao que bem utilizado emociona e unifica.

Tradição deve caminhar com Inovação, com toda certeza, mas com sinergia, respeito e total atenção.

Hoje a contratação de Heads Criativos ou Arquitetos de Jornadas são anunciados com toda ênfase e holofotes. Bacana... é um movimento contemporâneo.

Mas essas figuras, muitas vezes com poder figurativo midiático, não podem deixar para trás a contratação de cerimonialistas que zelam pela condução harmoniosa, sagaz e respeitosa de todo o projeto.

Cerimonial e Protocolo não são detalhes: são a espinha dorsal de qualquer evento. Quando essas etapas funcionam, ninguém percebe. Quando falham… viram notícia e memes.

E a gente virou colecionador desses memes!!!