Mulheres no comando: liderança feminina ganha espaço na hotelaria do Rio

Executivas à frente de grandes hotéis mostram como diversidade e gestão estratégica transformam o setor
Cristo iluminado em campanha de combate à violência contra a mulher

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a hotelaria do Rio de Janeiro tem um motivo a mais para comemorar. Em um setor historicamente marcado pela forte presença feminina na base operacional, cada vez mais mulheres assumem o protagonismo na alta gestão de hotéis da capital e do interior do estado, segundo o HotéisRIO. Se antes estavam majoritariamente na recepção, na governança e no atendimento ao hóspede, hoje comandam grandes operações, lideram equipes numerosas, definem estratégias comerciais e impactam diretamente os resultados financeiros.

A hotelaria está entre os maiores empregadores do setor de serviços da capital, segundo o relatório “Panorama da Empregabilidade na Hotelaria”, elaborado pelo Observatório do Trabalho Carioca da Secretaria Municipal de Trabalho e Renda do Rio de Janeiro. O segmento é fundamental para a economia local, gerando cerca de 20 mil postos de trabalho formais na cidade. Um dos destaques do levantamento é a participação expressiva das mulheres, que representam aproximadamente 44,7% da força de trabalho formal na hotelaria do município. Outro dado relevante é o nível de escolaridade: as mulheres apresentam, em média, formação mais elevada do que os homens, com maior presença entre os que possuem ensino médio completo e ensino superior.

A distribuição de gênero revela que, a cada dez trabalhadores da hotelaria, cerca de 4,4 são mulheres. A maior concentração feminina está na faixa etária entre 25 e 44 anos, que reúne 54,9% dos vínculos ativos. Ainda assim, há presença significativa de jovens entre 18 e 24 anos (12,5%), reforçando o papel da hotelaria como porta de entrada para o mercado formal de trabalho.

Para o presidente do HotéisRIO, Alfredo Lopes, o avanço feminino na alta gestão reflete a profissionalização e a maturidade do setor. “A hotelaria sempre contou com uma forte presença feminina, mas hoje vemos mulheres ocupando posições estratégicas, liderando grandes equipes e influenciando diretamente os resultados dos empreendimentos. Esse movimento fortalece o setor, amplia a diversidade de visões e torna a gestão mais moderna e eficiente. Ainda há desafios, mas estamos avançando de forma consistente”, ressalta.

Os números ajudam a explicar uma transformação que já pode ser percebida na prática — e nas trajetórias de profissionais que vêm abrindo caminhos. Sophie Barbara, gerente geral do Hotel MGallery Santa Teresa, avalia que houve avanços nos últimos anos, mas reconhece que persistem desafios. “Ainda existe uma cultura muito masculina nos cargos de liderança, com a exigência de disponibilidade total, o que impacta decisões corporativas. Para superar isso, é essencial ter inteligência emocional, boa gestão de tempo e humildade para aprender desde a base”, afirma.

No Grand Hyatt Rio de Janeiro, Alexandra Bueno tornou-se pioneira ao assumir a gerência geral não apenas da unidade carioca, mas também da região da América Latina e Caribe. “É uma grande satisfação abrir caminho para outras mulheres em posições de liderança. Meu propósito é dar oportunidades, desenvolver talentos e mostrar que é possível alcançar objetivos profissionais”, destaca.

Laís Vertis, gerente geral do Vila Paranaguá, observa que a representatividade feminina cresceu, mas ainda enfrenta resistências. “O masculino ainda é muito associado ao poder. Minha maior ferramenta para superar essa descrença foi estudar, me aprofundar nos assuntos e argumentar com base técnica. Hoje percebo que muitas pessoas me procuram justamente pela minha capacidade de ouvir, ponderar e dialogar”, explica.

Com mais de duas décadas à frente do Sheraton Rio Hotel & Resort, Sintia Gomes é um dos nomes mais experientes da hotelaria brasileira. “Há 20 anos não era comum ver mulheres em altos cargos de liderança. Hoje, com orgulho, vemos várias mulheres dirigindo hotéis no Rio de Janeiro. Para conquistar esse espaço foi preciso determinação, energia, resiliência e uma rede de apoio. Acreditem no seu potencial e nunca deixem de ser humildes”, aconselha.

Carolina Mescolin, gerente-geral do JW Marriott Hotel Rio de Janeiro, reflete com orgulho sobre sua jornada como mulher e líder na hotelaria. “Liderar, para mim, nunca foi apenas ocupar um cargo, mas assumir diariamente a responsabilidade de inspirar pessoas, desenvolver talentos e criar um ambiente em que todos possam alcançar o seu melhor. A liderança feminina traz sensibilidade, escuta ativa, coragem e propósito. É a capacidade de equilibrar resultados com empatia, estratégia com humanidade e firmeza com cuidado”, afirma.

Na Serra Fluminense, o resort Le Canton é liderado por Mônica Paixão, que comemorou, em 2025, dez anos à frente do empreendimento. Desde 2023, ela ocupa o cargo de CEO, tornando-se a primeira mulher a assumir a função na história do resort. “Tenho muito orgulho da carreira que construí no turismo. Fui pioneira ao ocupar postos de direção e gerência nesse mercado no estado do Rio. Em todos os hotéis em que trabalhei, desenvolvi projetos de longo prazo. Essa escuta ativa, característica feminina, e essa liderança movida por propósito acompanham toda a minha trajetória”, afirma.

No sul do estado, Dona Lili Mello é lembrada como uma das grandes referências da hospitalidade fluminense. Em Conservatória, distrito de Valença, ela transformou um pequeno sítio no Hotel Fazenda Vilarejo, hoje referência de acolhimento e afeto há mais de quatro décadas. Ao lado do marido, João Batista, construiu um empreendimento guiado por coragem, simplicidade e um cuidado quase maternal com cada detalhe. Seu legado permanece vivo na condução do negócio por filhos e netos, mantendo a essência que marcou gerações de hóspedes e colaboradores.

Neste mês dedicado às mulheres, a hotelaria fluminense evidencia que o futuro da hospitalidade também é construído por lideranças femininas — não como exceção, mas como força estratégica. Em um mercado cada vez mais competitivo e atento à experiência do cliente, diversidade deixou de ser apenas discurso institucional para se tornar um diferencial de negócio, inovação e resultado.