Índices de hospedagem: uma incógnita durante a Copa

Executivos e hoteleiros gaúchos fazem uma análise realista da ocupação durante o evento esportivo.
Hotelaria gaúcha questiona ocupação na Copa do Mundo de 2014




Hoteleiros e executivos de alguns dos principais empreendimentos gaúchos analisam com cautela os lucros garantidos e propagados com a venda de diárias nas cidades onde vão acontecer os jogos da Copa do Mundo de 2014. As dúvidas que pairam entre o setor tem razão de ser. Elas estão baseadas na experiência vivida na África do Sul com o evento esportivo de 2010. As expectativas de ocupação não se concretizaram por vários motivos: os grupos de torcedores não queriam se separar, não queriam ficar cada um em um lugar, isto só para citar um exemplo.

Muitos hotéis, como os da Cidade do Cabo, tiveram que baixar os preços para tentar atrair os hóspedes. Entre os motivos que levaram à queda na ocupação está a drástica redução no número de turistas, tanto estrangeiros quanto locais. As pressões contínuas da recessão mundial e o aumento nos gastos devido aos salários dos funcionários, na eletricidade e nos impostos municipais foram apontados por especialistas como fatores que reduziram drasticamente as taxa de ocupação, levando vários meios de hospedagem no país a encerrarem suas atividades.

Presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre, Daniel Antoniolli afirma ter algumas apreensões com o período da Copa. Segundo ele, são apenas cinco jogos num período equivalente a 15 dias. “Muitos turistas não vão ficar na capital, eles vão viajar para o interior do estado, conhecer a serra”, diz ele. Outra questão apresentada pelo empresário é quais as seleções a cidade irá receber. “Se forem times da Europa, com tradição no futebol e poder aquisitivo elevado, teremos um público muito maior”, diz.

O receio, acrescenta Antoniolli, é receber as equipes da América Central, África ou Ásia, pois o número de pessoas vindas destas regiões será reduzido. Outro importante aspecto apontado por ele, é que a ocupação normal da cidade vai diminuir ou desaparecer. “As pessoas não virão a Porto Alegre em plena Copa do Mundo a não ser em caso de urgência, porque a infraestrutura estará cheia e os custos mais elevados”, acrescenta. Daniel diz saber ainda que muitas multinacionais irão evitar ao máximo suas viagens corporativas entre as capitais brasileiras nesta época.

“Com a experiência de Londres a gente sabe que o perfil de turista normal será totalmente substituído por outro. E se o grupo não vier em massa, em grande escala, poderemos ter uma surpresa”, completa o presidente. Gerente comercial do Hotel Deville de Porto Alegre, Carlos Sanches diz que estes visitantes não vão chegar com antecedência para conhecer o destino, e sim, no máximo, um dia antes. “O perfil será de homens, na faixa dos 25 aos 45 anos, com grupos de incentivo, ou seja, empresas que acabam premiando seus funcionários e colaboradores para participar destes eventos”, reforça.

Carlos afirma que o deslocamento aéreo da Europa e da Ásia para o Brasil será um grande inibidor. “A distância é grande e os valores das passagens altos. Na Alemanha, as pessoas movimentavam-se de trem ou de carro, muito mais prático e barato”. Um público interessante, opina Carlos, seriam os torcedores de times como Chile, Argentina ou Uruguai. “Eles possuem mais recursos financeiros e ficam próximos ao Rio Grande do Sul”. Sanches também prevê um movimento maior após a Copa do Mundo devido ao represamento.

“As empresas vão voltar à sua rotina, até porque elas seguraram os recursos no primeiro semestre. Esta é a nossa expectativa. Vamos trabalhar com esta realidade”, acrescenta. “Mesmo assim, eu vejo um cenário preocupante, pois muitos hotéis estão abrindo em Porto Alegre”. O economista e membro do Conselho de Turismo e Hospitalidade da Fecomércio, Abdon Barreto Filho, afirma que convém lembrar a necessidade da realização de estudos de mercados para que novos meios de hospedagem não sejam transformados em “elefantes brancos” sem maiores utilidades, com reduzido número de hóspedes, frustrando investidores e a comunidade local.

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