Teve início no dia 12 de novembro, em São Paulo, a 17.ª edição do Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual. O evento integra o calendário oficial do Ano da França no Brasil com uma homenagem ao cineasta Jacques Nolot. A cerimônia de abertura da mostra lotou as dependências do Cine SESC, na rua Augusta, zona Oeste de São Paulo, e contou com a presença dos organizadores e da equipe do filme “Do Começo Ao Fim”, de Aluizio Abranches, que abriu o festival.
O Festival Mix Brasil, que vai até o dia 22 de novembro, exibirá pela primeira vez um panorama de longas-metragens nacionais, com sete filmes no total. Tradicionalmente, o evento criado em 1993 é considerado o maior fórum de cinema GLBT da América Latina.
Para o diretor-executivo do Festival, João Frederici, mesmo após as conquistas obtidas pela comunidade GLBT nos últimos anos, o festival continua se mostrando necessário. “É tão distante a primeira edição de agora, ocorrida há dezessete anos. Mas ainda continuamos a ver coisas que remetem à homofobia, discriminação e preconceito. Às vezes penso se é importante fazermos esse festival ainda, mas em seguida percebo sua representatividade. É importante também mostrarmos às pessoas que toda forma de amor vale a pena, e temos de respeitar isso”, afirmou Frederici.
Grande homenageado do festival, o ator, roteirista e diretor Jacques Nolot afirmou que, apesar de ter gostado muito de assistir ao filme de abertura, sente uma diferença muito grande em relação às suas produções. “Penso que é um filme que vai muito além da temática homossexual. Trata-se de um filme de amor, juventude e família. Meus filmes falam de frustração, angústia e infelicidade na vida. Na verdade, é como se eu estivesse um pouco deslocado de todo esse ambiente festivo da mostra”. De acordo com Nolot, os três longas dirigidos por ele e que serão apresentados no Mix são, acidentalmente, uma trilogia de sua vida. Nolot não crê que o cinema tenha um poder transformador de luta contra preconceitos, mas admite que começou a mudar de opinião por causa de um filme norte-americano: “O filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee, começou a mudar as coisas. Mas acredito ser difícil o combater o preconceito. Ele não existe só no Brasil, acredite. Sou de uma pequena cidade do Sudoeste francês (Marciac), uma “cidade do rugby”, minha infância foi assombrada pelo machismo”, afirmou.
Os longas dirigidos por Nolot a serem exibidos no Mix são: “Antes Que Eu Me Esqueça” (Avant Que J’Oublie - 2007), “La Chatte aux Deux Têtes” (2002) e “L’Arrière-Pays” (1997). Também serão exibidos longas em que atuou como roteirista, como “J’Embrasse Pas” (1991, de André Techinet) e La Robe à Cerceaux (1992, de Claire Denis). Outro convidado presente ao festival é o jovem diretor Pascal Alex Vincent, que apresenta o longa “Dê-me a Sua Mão”(Donne-Moi La Main, 2009).
A jornalista e diretora artística do Mix, Suzy Capó, que está em sua organização desde a primeira edição, afirmou que, mesmo com o preconceito, o festival sempre foi muito bem recebido desde o início pelo público e por instituições públicas. “A única diferença era que a mídia da época, no início dos anos 1990, sempre se focava em procurar escândalos. Lembro que uma vez falaram até de ameaça de bomba. Agora não, o festival é tratado como deve ser, ou seja, um evento cultural”, afirmou. Sobre a programação francesa, Capó afirmou que a opção pela homenagem a Nolot veio por sua coragem em fazer filmes autobiográficos. “Além dos filmes em que ele participa, temos outras produções daquele país que foram incluídas dentro da programação internacional para realçar o vigor da cinematografia francesa dentro da temática da diversidade sexual”, explicou a diretora.
Abertura
O filme de abertura do festival, “Do Começo Ao Fim” trata da história de uma relação de amor incestuosa entre dois irmãos, e conta com as atuações de Júlia Lemmertz, como a mãe,Fábio Assunção, como o pai, e dos estreantes Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos – os filhos em idade adulta. Para o diretor da obra, Aluizio Abranches, o cinema continua como uma forte ferramenta para romper barreiras e lutar contra preconceitos. “Essa é uma função do cinema também, embora não obrigatória. Mas esse tipo de filme pode ajudar a romper esses tabus. A homossexualidade, para mim, nem é mais tabu hoje em dia e homofobia é quase crime. Eu tento sempre colaborar para que haja discussão sobre esses assuntos”, disse o diretor, que se revelou um grande fã de François Truffaut: “Este seria um diretor que eu gostaria que pudesse apreciar esse filme, ele me inspirou muito na vida”.
Para Rafael Cardoso, que interpretou um dos irmãos, não houve pressão externa contra o filme: “Tudo ocorreu de forma muito tranquila. O processo de criação e de concepção do projeto foi muito bem conduzido. Méritos para o Aluisio, que tratou tudo de forma muito sensível. Acho importantíssimo de vários outros temas, como vários filmes que abordam a violência e a segregação social, mas precisamos também levar à tela outros tipos de questionamento, não só valores morais, mas pessoais também”.
O Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual é uma realização da Associação Cultural Mix Brasil e conta com patrocínio da Prefeitura da Cidade de São Paulo, apoio do SESC São Paulo, da Secretaria do Audiovisual, da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo, da Secretaria Municipal da Cultura do Estado de São Paulo, da Imprensa Oficial, do Proac, do Governo Federal do Brasil e da República Francesa.

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