Eventos e Gastronomia

Algumas inquietações sobre o papel da gastronomia em eventos.

Hoje,vamos  conversar sobre o papel da gastronomia em Eventos

Tenho observado muitos eventos e uma pergunta começa a me incomodar: em que momento decidimos que receber pessoas era simplesmente oferecer alguma coisa para comer? Talvez tenhamos profissionalizado tanto os eventos que esquecemos justamente aquilo que lhes dava sentido: o encontro. Criamos cenários monumentais, credenciais sofisticadas, aplicativos, telas gigantescas e discursos sobre inovação. Mas, quando chega a hora de sentar à mesa, frequentemente oferecemos o previsível. Modernizamos a embalagem e empobrecemos a experiência.

A gastronomia continua sendo tratada, em muitos eventos, como um item burocrático da planilha. Calculam-se quantidade, custo por pessoa, duração do intervalo e número de garçons. Tudo matematicamente correto. Tudo emocionalmente vazio. Esquecemos que comida não é apenas alimento. É memória, território, afeto, identidade e também posicionamento. O que se serve diz muito sobre quem recebe — e, algumas vezes, revela mais do que o discurso de abertura.

Confesso que me cansam os coffee breaks clonados. Mudam os hotéis, os centros de convenções, os organizadores e até os países, mas aparecem os mesmos pequenos sanduíches, os mesmos salgados, os mesmos doces anônimos. Tudo impecavelmente alinhado sobre uma mesa que poderia estar em qualquer lugar do mundo. E exatamente aí reside o problema: quando uma experiência poderia acontecer em qualquer lugar, talvez ela não pertença verdadeiramente a lugar nenhum.

Por que um evento no Rio não pode ter gosto de Rio? Por que não apresentar pequenos produtores, receitas, ingredientes e histórias cariocas? Por que insistimos em importar modelos quando temos uma identidade gastronômica capaz de dialogar com nossa história, nossa diversidade e nossas contradições? Não proponho folclorizar a comida nem transformar cada mesa em cartão-postal. Proponho algo muito mais difícil: ter personalidade.

Viajar me ensinou que determinados lugares entram primeiro pela boca e somente depois pela memória. Há cidades das quais esquecemos monumentos, mas jamais esquecemos determinados sabores. Porque uma receita pode carregar migrações, pobreza, abundância, resistência, encontros culturais e afetos familiares. Um prato também é um documento histórico — só que escrito com aromas, texturas e lembranças.

E há outra reflexão necessária: confundimos sofisticação com preço. Não são sinônimos. O luxo gastronômico não está necessariamente no ingrediente raro, na louça cara ou na decoração espetacular. Está na autenticidade. Prefiro uma comida simples que tenha uma história para contar a uma gastronomia pretensiosa que só tenha uma fotografia para oferecer. Estamos vivendo perigosamente a era do prato feito para o Instagram e não para a memória.

Talvez seja essa a grande contradição dos eventos contemporâneos. Nunca tivemos tanta tecnologia para aproximar pessoas e talvez nunca tenhamos precisado tanto reaprender a encontrá-las. Falamos de inteligência artificial, realidade aumentada, experiências imersivas e conectividade permanente. Tudo fascinante. Mas continuamos esquecendo uma das tecnologias sociais mais extraordinárias inventadas pela humanidade: a mesa.

Em torno dela, as hierarquias podem diminuir. O crachá perde importância. O palestrante conversa com o estudante, o empresário encontra o pequeno empreendedor, o desconhecido ganha nome e uma conversa aparentemente banal pode transformar-se em parceria, amizade ou projeto. Networking não nasce apenas da troca de cartões. Nasce da disponibilidade para olhar o outro. E poucas coisas favorecem tanto esse olhar quanto compartilhar uma mesa.


Precisamos, portanto, repensar urgentemente a relação entre eventos e gastronomia. Menos comida protocolar. Menos desperdício. Menos cenografia gastronômica. Menos obsessão em impressionar. Mais território. Mais produtores locais. Mais sustentabilidade. Mais criatividade. Mais afeto. Mais verdade. A gastronomia não deveria entrar no projeto de um evento depois que tudo já foi decidido. Ela deveria fazer parte de sua narrativa desde o início.

No fundo, talvez a questão seja ainda maior. Que tipo de lembrança queremos produzir? Se um evento existe apenas para cumprir programação, entregar certificados, fotografar autoridades e contabilizar participantes, talvez tenhamos reduzido encontros humanos a números de relatório. Eventos deveriam provocar alguma transformação, ainda que pequena. Uma ideia que incomoda. Uma conversa que permanece. Um sabor que nos transporta.

Porque eventos acabam — e talvez seja saudável lembrar disso. Os palcos serão desmontados, os telões apagados, as flores morrerão, os crachás irão para o lixo e muitos discursos pretensamente inesquecíveis serão esquecidos antes mesmo do dia seguinte. Mas um aroma pode atravessar décadas. Um sabor pode devolver uma infância. Uma mesa pode iniciar uma amizade. Por isso, chega de apenas alimentar participantes: precisamos voltar a receber pessoas. Servir comida é relativamente fácil. Servir identidade exige coragem. Servir memória exige sensibilidade. E servir afeto, num mundo cada vez mais apressado e artificial, talvez seja hoje a forma mais sofisticada — e revolucionária — de realizar um evento.