“Eu sempre fiz assim!”
No setor de eventos, é comum perceber uma postura que todos conhecem bem, o famoso: “eu sempre fiz assim!”.
Curiosamente, na maioria das vezes essa frase nem chega a ser dita literalmente. Ela aparece de outras formas: em uma reação imediata a uma sugestão de mudança, em um argumento baseado apenas no histórico de execução ou mesmo em uma postura que, verbal ou fisicamente, deixa claro que determinado procedimento não deveria ser alterado.
Frequentemente, essa expressão, explícita ou implícita, é interpretada como resistência à mudança. E, de fato, muitas vezes é. Mas é importante reconhecer que quem a manifesta nem sempre está equivocado.
Em um setor tão operacional quanto o de eventos, muitas práticas foram consolidadas ao longo de anos, ou até décadas de experiência. Procedimentos se repetem porque funcionam, foram testados inúmeras vezes em situações reais e ajudam a mitigar riscos em operações complexas.
Portanto, o problema não está necessariamente no “eu sempre fiz assim”.
A questão surge quando essa postura passa a significar “não mexa no meu queijo”.
A expressão remete ao livro Who Moved My Cheese?, de Spencer Johnson. Na obra, o “queijo” representa aquilo a que nos acostumamos: rotinas, métodos, posições ou zonas de conforto. Quando o queijo muda de lugar, alguns personagens resistem, negam a mudança ou ficam paralisados, enquanto outros compreendem que o ambiente mudou e decidem se adaptar. A reflexão é simples. O problema não está no que funcionou no passado, mas na incapacidade de perceber que o contexto pode ter mudado.
No setor de eventos, essa reflexão faz bastante sentido.
Quando um processo deixa de ser analisado, discutido ou aprimorado simplesmente por ser uma prática antiga, abre-se espaço para ineficiências e até riscos. Em um ambiente que envolve estruturas temporárias, prazos apertados, grande fluxo de pessoas, instalações elétricas complexas e múltiplos fornecedores atuando simultaneamente, questionar processos faz parte da gestão responsável.
É nesse ponto que surge um elemento fundamental para o amadurecimento do setor: o papel das associações.
Associações não existem apenas para representar interesses institucionais ou promover networking. Uma de suas funções mais relevantes é estimular a evolução das práticas do setor, criando espaços de diálogo entre organizadores, montadoras, pavilhões, fornecedores e demais elos da cadeia produtiva.
É nesse ambiente coletivo que surgem discussões essenciais, como segurança nas montagens, qualificação profissional, padronização de processos, adoção de normas técnicas e um tema recorrente e sensível: os prazos exequíveis de montagem e desmontagem.
Durante muitos anos, determinados prazos foram estabelecidos quase como uma tradição operacional. Em alguns casos funcionaram bem. Em outros passaram a gerar pressões operacionais, jornadas excessivas, aumento de riscos e perda de eficiência.
Isso não significa que tudo precise ser mudado. Significa apenas que precisa ser debatido.
A experiência acumulada pelo setor é um patrimônio valioso. Mas experiência não deve ser usada para impedir a evolução. Deve servir como base para aprimorar práticas e processos.
Talvez, portanto, o desafio não seja abandonar o “eu sempre fiz assim”.
O verdadeiro desafio é acrescentar a essa frase uma pergunta simples.
Isso continua sendo a melhor forma de fazer?
Quando o setor passa a fazer essa pergunta de forma coletiva, mediada por suas entidades e baseada em critérios técnicos, ele deixa de apenas repetir práticas e passa, de fato, a evoluir como indústria.

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