Corrida de São Silvestre erra no básico

Se não temos competência para planejar e entregar uma prova decente para a quantidade de inscritos, é preciso rever os números. De que adianta atingir um volume impressionante se não há eficiência, eficácia e logística para atender a todos?

Errar é totalmente humano, mas quem está à frente da organização de um evento, que já tem histórico, tem tradição de 100 anos, e consegue fazer uma lambança na experiência de seus participantes...isso não é cabível de desculpas, pois demonstra total incompetência no serviço prestado.

A corrida de rua de São Silvestre idealizada pelo jornalista Cásper Líbero em 1925 se tornou um dos principais evento do gênero no país e na América Latina. Desde então, só foi interrompida em 2020, devido à pandemia Covid-19, justificando, então que somente em 2025 uma celebração de maior brilho tenha sido preparada.

Os participantes - atletas amadores e profissionais - contemplam em um espaço esportivo pelas ruas de uma das maiores cidades do mundo, São Paulo, um trajeto de 15 km, com a largada na Avenida Paulista, próximo ao número 2084, e a chegada em frente ao prédio da Fundação Cásper Líbero, também na Avenida Paulista, 900.

Era aguardado que em sua centésima edição, os números fossem impactantes: 55 mil inscritos – a maior da história em número de participantes, com a participação de 44 países (TOP 4: Brasil, Alemanha, EUA e Espanha), com uma presença feminina em ascensão de 47,02% versus 38,44% em 2024.

E há ainda outros números que demonstram seu gigantismo:

• 4.600 atletas internacionais, entre eles corredores norte-americanos, alemães, colombianos, austríacos e sul-africanos;

• 2.200 trabalham na organização da prova;

• 180 pessoas trabalham diretamente na montagem da arena de largada e chegada;

• 800 policiais entre Polícia Militar e Guarda Municipal Metropolitana (Aumento de 110% em relação a 2024);

• 35 ambulâncias;

• 100 pessoas entre médicos, enfermeiros e condutores;

• 5.000 grades para controle de acesso e fluxo ao longo da AV. Paulista;

• E média de 28 mil pessoas acompanhando a prova ao longo do percurso.

Claro que desde o início das inscrições, o evento já demonstrou sua fragilidade, nesse caso no quesito tecnológico, com a alta demanda de interessados.

E as reclamações só aumentaram depois, com situações como dos inscritos não receberem os kits adquiridos para participar da corrida. Alguns inscritos publicaram, inclusive, vídeos nas redes sociais demonstrando o “kit mequetrefe” recebido, inclusive sem a camiseta oficial. Também houve confusão nos pontos de retirada dos brindes e relato de furtos e roubos do material, tendo inclusive o acionamento da segurança pública.

A organização da prova emitiu um comunicado oficial informando que: “todos os inscritos que não foram contemplados com a camiseta a receberão ao longo do mês de janeiro, após o devido contato para confirmação de dados para o envio."

Ora, a ideia da camiseta era para o dia e horário da prova... receber depois??? No sense total!

Vale lembrar que o kit não era uma mera cortesia. Era pago, conforme categorias disponíveis:

Kit Geral R$ 358,29 (total) – Composto por 01 número de peito com chip de cronometragem, alfinetes, 01 camiseta, 01 sacola.

Kit Centenário R$ 492,69 (total) - Composto por 01 número de peito com chip de cronometragem, alfinetes, 01 camiseta, 01 camiseta finisher, 01 pin comemorativo e 01 sacola.

Kit Premium R$ 1.109,81 (total) – Composto por 01 número de peito com chip de cronometragem, alfinetes, 01 camiseta, 01 camiseta finisher, 01 pin comemorativo, 01 corta-vento, 01 boné e 01 sacola. *Serviços exclusivos na Expo SS e na Arena da Prova.

E pode piorar? Pode...

Com uma temperatura desértica, faltou água no percurso... sim... não aprendemos nada com o óbito de Ana Clara Benevides.

Agora dá para imaginar, concluir uma prova desafiante e não ter a medalha, símbolo da superação de sua conquista?

Pois é... Faltou medalhas para os participantes inscritos, mas nas mãos de atravessadores, com vestimentas de Staff, elas estavam sendo comercializadas nas estações de metrô. Vergonhoso!

Gente, que o Brasil é o país da esculhambação e das gambiarras, infelizmente isso é notório e tal fato já está ganhando cada vez mais terreno também nos eventos, de forma muito triste e perigosa.

Reputação é algo que se perde em um piscar de olhos e cem anos de história podem ser craquelados com essa falta de zelo e cuidado.

Se não temos competência para planejar e entregar uma prova decente para a quantidade de inscritos, é preciso rever os números. De que adianta atingir um volume impressionante se não há eficiência, eficácia e logística para atender a todos?

Que o pós-evento seja criterioso, detalhista e que não passem a mão na cabeça de quem não sabe fazer.

2025 já foi, e para 2026, devemos torcer para que os aprendizados sejam retirados e que não tenhamos mais esses cenários que nos tira o fôlego e nos deixam envergonhados.

Que tenhamos um ano de eventos espetaculares, nas mãos de quem tem excelência para liderar um pelotão de profissionais comprometidos e dispostos a fazer bem o que se promete. O podium deve ser ocupado por quem é capacitado e habilitado e se ainda não está em sua melhor performance, é hora de investir em seu aprimoramento. Uma excelente meta para começar o ano, concordam?