Comunidade se torna ativo estratégico para eventos em um cenário de excesso de estímulos e conexões frágeis

Painel do Fórum Eventos 2026 discutiu como transformar audiência em pertencimento e mostrou que vínculos duradouros valem mais do que picos momentâneos de atenção
universo do café como metáfora para relacionamentos e desenvolvimento de pessoas Erika Takano: quando há cuidado genuíno, personalização e propósito, o valor percebido também se transforma

Em um ambiente marcado pelo excesso de telas, pela disputa constante por atenção e por relações cada vez mais superficiais, criar comunidades se tornou um dos maiores desafios — e também uma das principais oportunidades — para o mercado de eventos. Essa foi a reflexão central do painel 19 do Fórum Eventos 2026, que reuniu Erika Takano e Ricardo Queiróz para discutir o tema “Da Audiência à Comunidade: Estratégias de Engajamento e Relacionamento Contínuo”.

Ao abordar o cenário atual do setor, o executivo da NextGen — empresa responsável por eventos proprietários como Pixel Show, Gov Summit, Animagine e Gamix — destacou que os eventos deixaram de ser experiências restritas a um único momento e passaram a exigir relações permanentes com seus públicos. Para ele, o grande desafio hoje é transformar participantes em comunidades vivas, capazes de sustentar vínculos e gerar continuidade ao longo do tempo.

Em sua opinião, nunca foi tão difícil captar a atenção e manter pessoas engajadas. Ao mesmo tempo, estudos recentes mostram o avanço de uma epidemia de solidão, o que torna os eventos plataformas estratégicas de conexão humana.

Durante sua apresentação, Ricardo Queiróz provocou a plateia ao afirmar que “a era dos seguidores está acabando” e que o mercado entra agora na “era dos vínculos”. Nesse contexto, ele propôs uma diferenciação importante entre conceitos frequentemente tratados como equivalentes. Vínculo, segundo ele, é diferente de contato. Frequência não significa presença. Engajamento não é pertencimento. E exposição está longe de representar intimidade.

A partir dessa lógica, o painel trouxe uma análise sobre o chamado “ciclo do hype”, comum nas redes e nas tendências digitais. O movimento passa por etapas de grande visibilidade e engajamento, mas frequentemente termina em saturação, desgaste e cancelamento. O problema, segundo Ricardo, é que marcas e projetos sustentados apenas por hype não encontram sustentação quando enfrentam crises. “Hype até te coloca no palco, mas quem te mantém de pé é a comunidade que construiu vínculo”, resumiu.

Ricardo Queiroz Ricardo: projetos sustentados apenas por hype não encontram sustentação quando enfrentam crises

Entre os elementos apontados como essenciais para a construção de comunidades fortes estão valores compartilhados, identidade simbólica, narrativa comum, presença contínua, rituais coletivos, lideranças distribuídas, autenticidade e relevância que vá além do produto ou serviço oferecido. Marcas como Mercado Livre, Netflix, TikTok, Lego e Nike são algumas que, no seu entender, conseguiram construir comunidades consistentes ao redor de seus valores.

Na sequência, Erika Takano, consultora da Senses Aprendizagem, trouxe uma abordagem mais sensorial e humana para o debate ao usar o universo do café como metáfora para relacionamentos e desenvolvimento de pessoas.

Partindo do fato de que o Brasil é o maior produtor e consumidor de café do mundo, a consultora explicou como pequenos cuidados no cultivo e no processamento podem transformar um café tradicional em um produto especial e de alto valor agregado. Ela falou sobre o plantio sombreado, colheita seletiva, processos de secagem e preparo, mostrando como cada detalhe interfere diretamente na qualidade final da bebida.

A analogia serviu para conectar esses processos ao desenvolvimento de equipes, parcerias e experiências em eventos. Segundo Erika, quando há cuidado genuíno, personalização e propósito, o valor percebido também se transforma. Ela também destacou como iniciativas ligadas ao ESG agregam valor às entregas e ajudam a construir conexões mais significativas entre marcas, equipes e consumidores.

O painel terminou com uma dinâmica prática envolvendo a plateia. Parte do público assumiu o papel de baristas, outra de clientes e o restante atuou como observador. O objetivo era estimular conversas mais empáticas e centradas na escuta. A atividade reforçou a importância de compreender as dores e necessidades do outro antes de oferecer soluções. Para Erika, conexões reais surgem justamente quando as pessoas se sentem genuinamente ouvidas.

Mais informações em: www.forumeventos.net