Hoje,dia do Amigo,vamos fazer algumas considerações...
A vida me ensinou que a amizade não se mede pelo número de fotografias, pelas mensagens de ocasião ou pelos brindes nos dias de festa. Mede-se pela permanência. E permanência é um verbo que poucos sabem conjugar.
Depois de tantas décadas, de tantos países percorridos, de salas de aula, auditórios, exílio, perdas, conquistas e reencontros, aprendi que o tempo é o mais rigoroso dos juízes. Ele separa os companheiros dos amigos. Os primeiros caminham conosco enquanto a estrada é confortável. Os segundos permanecem quando a travessia se transforma em tempestade.
Já conheci o aplauso e o silêncio. Já senti o calor dos abraços e o frio da indiferença. Descobri que existem pessoas que se aproximam da nossa luz, mas desaparecem na primeira sombra. Não eram amigos; eram apenas admiradores das circunstâncias.
O exílio ensinou-me o valor de uma mão estendida. A luta pela democracia mostrou-me que coragem também é permanecer ao lado de quem perdeu quase tudo. As viagens pelo mundo revelaram paisagens inesquecíveis, mas foram as pessoas que encontrei pelo caminho que desenharam meu verdadeiro mapa afetivo. Algumas ficaram para sempre. Outras passaram como turistas pela minha existência.
Vivemos uma época em que a amizade virou moeda de troca. Aproxima-se quem deseja prestígio, influência ou conveniência. A lealdade foi substituída pela utilidade, e a sinceridade, muitas vezes, pelo oportunismo elegante. É duro admitir isso, mas fechar os olhos seria uma forma de covardia.
Apesar das decepções, continuo acreditando. Talvez porque me recuse a envelhecer espiritualmente. Ainda acredito naquele amigo que telefona sem motivo, que celebra nossas alegrias sem inveja, que permanece durante nossas derrotas sem piedade humilhante. Esse amigo existe. É raro. E justamente por ser raro, torna-se precioso.
Hoje coleciono menos contatos e mais memórias. Prefiro uma conversa verdadeira ao ruído das redes sociais. Prefiro um abraço sincero aos aplausos interessados. Aprendi que a solidão nunca foi minha inimiga; inimigo é cercar-se de pessoas incapazes de amar sem calcular vantagens.
A amizade, afinal, é mito para os cínicos, realidade para os privilegiados e sonho para aqueles que ainda não desistiram da condição humana.
Quanto a mim, continuo sonhando. Porque, depois de tudo o que vivi, ainda acredito que são os amigos — os verdadeiros, os poucos, os inesquecíveis — que justificam a longa viagem da vida. Todo o resto é apenas paisagem.

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