A temporada dos candidatos

O que é ser candidato?Como deve ser a trajetória ética de quem busca um lugar no legislativo?Os diversos candidatos que só aparecem nas eleições para ganhar visibilidade.

Hoje,quero fazer algumas considerações sobre as eleições e pseudo candidatos...

Há uma fauna política que renasce religiosamente a cada eleição: os candidatos de ocasião. Passam anos em confortável silêncio diante dos problemas da sociedade e, subitamente, descobrem uma irresistível vocação para o serviço público. Apaixonam-se pelo povo com uma intensidade que chega a emocionar — sobretudo porque o romance costuma durar exatamente até a abertura das urnas. Visitam comunidades que ignoravam, descobrem professores que nunca defenderam, abraçam trabalhadores que provavelmente não reconhecerão depois e transformam feiras, botequins e estações de transporte em cenários eleitorais. Tudo registrado, editado e publicado. Afinal, nessa política de vitrine, a miséria também precisa oferecer um bom enquadramento.

As redes sociais tornaram o espetáculo ainda mais sofisticado. Produziram o candidato que confunde audiência com liderança e seguidores com eleitores. Cercado por assessores, filtros, slogans e uma indignação cuidadosamente ensaiada, acredita que exposição substitui trajetória. Não substitui. Curtida não é voto. Selfie não é trabalho. Reels não é política pública. E vaidade, por mais bem produzida que seja, continua não sendo vocação. A urna possui uma virtude quase pedagógica: não se impressiona com número de seguidores nem costuma aplaudir biografias fabricadas às pressas.

O momento revelador, porém, chega depois da derrota. É quando alguns apaixonados pelo povo solicitam silenciosamente o divórcio. A comunidade desaparece da agenda, as causas urgentíssimas entram em hibernação e aqueles chamados de “meus amigos” deixam de merecer visitas. Por isso, eu perguntaria a todo candidato apenas isto: “Onde você estará na segunda-feira depois da eleição se não ganhar?” Continuará defendendo educação, turismo, cultura, saúde e desenvolvimento sem mandato, salário, gabinete, assessor ou fotógrafo? Porque política não deveria ser tratamento para egos hipertrofiados, estratégia de promoção pessoal nem aventura de quem deseja experimentar por alguns meses a fantasia de homem público. Política exige conhecimento, história, coerência e, sobretudo, permanência.

Não me incomodam os candidatos que perdem. A democracia é feita também de derrotas, e muitas grandes trajetórias começaram com elas. Incomodam-me profundamente aqueles que, derrotados, desaparecem, porque acabam confessando aquilo que a campanha tentou esconder: não havia causa, havia candidatura; não havia compromisso, havia conveniência; não havia projeto, havia personagem. Depois guardam os santinhos, aposentam temporariamente a indignação e esperam a próxima eleição para redescobrir pobres, professores, comunidades e uma enternecedora paixão pela coisa pública. Os candidatos sérios continuam trabalhando. Os outros apenas aguardam a próxima temporada. E talvez esteja na hora de o eleitor deixar de dar audiência a quem transforma democracia em palco, população em figurante e política em exercício de vaidade.