Hoje,quero conversar com você sobre a Copa...
Com a proximidade do encerramento da Copa do Mundo de 2026, resta uma sensação difícil de ignorar: o futebol venceu em audiência, em faturamento e em marketing, mas perdeu parte de sua identidade. O maior espetáculo esportivo do planeta parece caminhar, a passos largos, para se tornar um produto perfeito, cuidadosamente planejado para atender ao mercado, enquanto se distancia de sua essência popular.
A FIFA administra uma marca bilionária e ninguém contesta sua competência em transformar o futebol em um fenômeno econômico global. O problema é quando o negócio passa a valer mais do que o esporte. A ampliação da Copa para 48 seleções, a multiplicação de partidas e a busca incessante por novas receitas revelam uma prioridade clara: crescer financeiramente, ainda que isso comprometa a qualidade da competição.
Não sou contrário à evolução. O futebol precisa acompanhar o mundo. Mas evoluir não significa vender sua alma. Uma Copa do Mundo não pode ser apenas um gigantesco centro de negócios, cercado por patrocinadores, interesses comerciais e ações de marketing. Ela precisa continuar sendo o palco onde a emoção supera o lucro e onde o torcedor é protagonista, não apenas consumidor.
Outra derrota ficou estampada nas arquibancadas e nas redes sociais: o racismo continua presente. A FIFA faz campanhas, divulga vídeos e proclama seu compromisso com a igualdade. Tudo isso é importante, mas insuficiente. Enquanto atletas continuarem sendo insultados pela cor da pele, qualquer discurso institucional será incompleto. O combate ao racismo exige punições severas, uniformes e imediatas. Não há espaço para complacência.
Também me incomoda a elitização crescente da Copa. O torcedor comum, aquele que atravessou gerações carregando bandeiras, pintando o rosto e transformando o futebol em patrimônio cultural da humanidade, foi sendo substituído por experiências exclusivas, áreas VIP e pacotes inacessíveis para a maioria. O futebol nasceu nas ruas. Não pode viver apenas nos camarotes.
Como professor e estudioso do turismo, reconheço o impacto econômico extraordinário da competição. Hotéis lotados, cidades movimentadas e milhões de visitantes demonstram a força desse evento. Quero,no entanto ,ressaltar que turismo também é encontro, diversidade, inclusão e legado social. Não basta contabilizar receitas. É preciso perguntar quem realmente se beneficia delas e que valores permanecem quando as luzes se apagam.
A Copa de 2026 mostrou um futebol tecnologicamente impecável, mas emocionalmente menos espontâneo. Tudo parece controlado, roteirizado e comercializado. O imprevisível, que sempre foi a maior beleza do esporte, corre o risco de ser sufocado pela lógica do entretenimento global.
Ainda acredito que o futebol possa reencontrar seu caminho. Mas isso exige coragem da FIFA para ouvir mais os torcedores do que o mercado, enfrentar o racismo sem hesitação, proteger a competitividade da Copa e compreender que nenhuma planilha financeira substitui a lágrima de um torcedor, o abraço após um gol ou a esperança que uma bola desperta em milhões de pessoas.
A Copa do Mundo pertence à humanidade, não aos balanços financeiros. E enquanto essa verdade não voltar a orientar seus dirigentes, continuaremos assistindo a torneios cada vez maiores, mais ricos e mais sofisticados, mas cada vez mais distantes daquilo que fez do futebol a maior paixão coletiva do planeta.

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