Nudges aplicados na Serra da Cantareira

O presente texto tem como tema central a sustentabilidade no turismo de lazer. Minha pesquisa de mestrado tentará identificar um possível direcionamento comportamental estimulado pela tecnologia, relacionando conceitos como nudges e gamification, visando assim a adoção de práticas sustentáveis na natureza. Para tanto, serão utilizadas experiências práticas ambientadas no Núcleo Engordador do Parque Estadual da Cantareira. A pesquisa será de natureza aplicada, pois tem como objetivo gerar conhecimento de aplicação prática para um problema específico, no caso analisar a aplicação tecnológica dos conceitos já citados à realidade de um parque estadual com apelo ecoturístico. Os resultados desejados serão a adoção de certos comportamentos com os nudges e fazer com que o visitante tenha maior interação com a natureza através gamificação.

O tema da sustentabilidade nunca foi realmente central no desenvolvimento do ser humano, em qualquer uma das esferas que formam o chamado tripé sustentável: economia, ambiente e sociedade. No turismo, isso não foi diferente, sendo que o turismo sustentável é tratado praticamente como um nicho de mercado, nos moldes do ecoturismo, ou algo difícil e custoso de se implantar. No Brasil, isso não é muito diferente, a despeito do fato de sermos o segundo país com maior potencial turístico de natureza do mundo, segundo o World Economic Forum (WEF).

Em meio a este contexto social, econômico e ambiental, um fato desencadeado no final de 2019 e tornado relevante em 2020 alterou a dinâmica da sociedade atual: a disseminação do SARS-Covid-19, sendo classificada como uma pandemia. Os fluxos de circulação inter e intracontinental foram reduzidos ou momentaneamente cessados, alterando também o turismo massificado e globalizado, com consequências que devem se arrastar por muitos anos.

A escolha por um turismo mais sustentável a partir de agora pode parecer óbvia, mas nem sempre o óbvio fez parte das escolhas dos consumidores, como já dizia Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia. Embora, muitos adotem práticas sustentáveis conscientemente em seu cotidiano e nas viagens, questiona-se: é possível fazer com que o turista de lazer comum tenha mais estímulos para adotar essas práticas? A resposta à essa pergunta seria uma das possíveis soluções para se evitar o refortalecimento do turismo predatório e do overtourism (excesso de turismo), ao invés de se criticar a cadeia empresarial-governamental do turismo, para que apena ela tome atitudes e seja mais sustentável?

Estudos com o conceito de nudges foram no Brasil traduzidos como “Arquitetura da Escolha”. O conceito pode ser entendido como estímulo, incentivo ou “cutucão” para determinada opção, geralmente aquela que mais beneficia a própria pessoa (mesmo ela não tendo consciência disso) ou o maior número possível de pessoas, mas oferecendo liberdade de escolha. Segundo seus criadores, os americanos Cass Sunstein e Richard Thaler, esse “cutucão” é determinado por aqueles que têm algum poder de interferir na decisão de um certo público, seja por meio de governos, empresas, mídias. Inspirado nos estudos de Daniel Kahneman e outros teóricos sobre economia comportamental, esses conceitos vem sendo aplicados à sustentabilidade no turismo há pouco tempo.

A pesquisa a ser realizada, da qual a presente reflexão faz parte, pretende aplicar esse conceito em um momento per e pós-pandemia, principalmente por conta do grande potencial do turismo de lazer doméstico, haja vista as possíveis dificuldades que existirão em se viajar para o exterior, como encarecimento da viagem, restrições de entrada, excesso de protocolos ou simplesmente o medo de se viajar para locais distantes nesse momento. Por isso, escolhemos o Núcleo Engordador do Parque Estadual da Cantareira, por ser um local de apelo ecoturístico dentro da maior cidade e maior centro emissor de turistas do Brasil, que é São Paulo.

Outro conceito que utilizaremos é o de gamification, ou gamificação. Segundo os autores do artigo "Game-based learning: Latest evidence and future directions" da "National Foundation for Educational Research":

“... o processo de desenvolvimento tecnológico está atenuando as fronteiras entre formatos, espaços, linguagens e práticas associadas aos videogames, levando a experiências ‘misturadas’ para além do jogo em si, ampliando as possibilidades de assimilação do design de jogos digitais à resolução de problemas sérios, encorajando o aprendizado e o uso de todos os elementos apropriados de um jogo. Este processo, conhecido como Gamificação (gamification), se dá a partir do interesse em uma série de princípios, ferramentas e técnicas, que nascem dos jogos digitais, mas alcança outras áreas, como a educação”.

Obviamente, nem todos os frequentadores de um parque ecoturístico podem ser considerados ecoturistas, no sentido estrito do termo, ou seja, “aquele que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações”, segundo o Ministério do Turismo. Ainda mais em um parque localizado dentro dos limites da maior cidade do Brasil. Muitos paulistanos se surpreendem ao saber que existem trilhas e cachoeiras nesse local, que já fez parte do primeiro sistema de abastecimento da cidade de São Paulo e que ainda guarda um tesouro histórico: a Casa da Bomba. A Serra da Cantareira é considerada a maior floresta urbana do planeta e o Sistema Cantareira como um todo, é responsável pelo abastecimento de 46% da Região Metropolitana.

Não pretendemos afirmar que o ecoturismo seja o modelo ideal de turismo, haja vista apresentar muitos impactos negativos no ecossistema, como descaracterização da paisagem, poluição e alteração na reprodução, comportamento e hábitos alimentares da biota. Ainda assim, seria o modelo de turismo mais “amigável” ao meio ambiente, trazendo noções e conceitos que podem ser aplicados ao turismo comum.

Não é nenhum segredo que a tecnologia faz parte de nossas vidas de forma irreversível, sendo que os smartphones são praticamente uma “extensão” de nossa mente. Pretendemos utilizar o “poder” desses aparelhos para amplificar a mensagem da sustentabilidade. Apesar de não sabermos ainda se o futuro do turismo passará por uma maior consciência ambiental, com uma demanda devidamente “cutucada” poderemos ter uma oferta e, consequentemente, um mercado de turismo mais saudável no futuro.

A pesquisa deveria se iniciar agora em janeiro de 2022, contudo devido à concessão do Parque Estadual da Cantareira à iniciativa privada, as conversas com a nova administração deverão começar em março. Conforme formos tendo novidades, vamos atualizando aqui neste espaço.