Hospitalidade, Turismo e Sustentabilidade: Uma Relação Natural

Todo turismo envolve hospitalidade, embora a recíproca não seja verdadeira. Essa relação chega a ser bastante óbvia, porém aquela existente entre hospitalidade e sustentabilidade não salta tanto aos olhos. O Ecoturismo é o segmento turístico certo para discutirmos essas relações. Para tanto, faz-se necessário breves históricos e explanações dos temas hospitalidade, turismo e sustentabilidade para que consigamos correlacioná-los.

1. Hospitalidade

Existe muito material disponível a respeito da hospitalidade, tradição existente praticamente desde o início da humanidade. Camargo (2004, p. 09) é tido como o catedrático que inicia o debate acadêmico da Hospitalidade no Brasil. O autor escreve notar “pela primeira vez o apelo do termo” em 1997. Para ele, a globalização estimula e incita a discussão sobre o tema.

O professor Camargo divide o estudo da hospitalidade em duas escolas: a francesa e a anglófona. A primeira diz respeito à hospitalidade doméstica e pública, acreditando na tríade dar-receber-retribuir, de referencial maussiano. Para ela, a hospitalidade não deve impor condições, sendo que as pessoas deveriam se satisfazer apenas sendo hospitaleiras umas com as outras. Por sua vez, a escola anglófona enxerga a hospitalidade como contratos e trocas comerciais.

Já para Baptista (2005, p. 11), a hospitalidade ocorre “em todas as esferas do cotidiano, no plano da vida institucional ou na diversidade de territórios de sociabilidade humana, nos locais de trabalho ou de lazer, nos espaços privados ou públicos”.

Embasado em Mauss, Camargo (2004) concebe a hospitalidade como uma dádiva, que abarca três momentos: dar, receber e retribuir. O contato humano não se solidifica como uma troca ou contrato comercial. O autor prega que o processo se inicia com uma dádiva de alguém, e a retribuição dessa pessoa gera novo processo de receber e retribuir, com prazo indefinido.

A hospitalidade enquanto virtude, segundo o professor Camargo, está se esvaindo no ambiente comercial, sendo que as virtudes reais da hospitalidade devem ser retomadas. O público da hospitalidade deve ser todas as pessoas, indiscriminadamente.

2. Turismo

As viagens fazem parte do imaginário humano desde as primeiras civilizações. A busca pela sobrevivência em uma época dominada por animais mais fortes, quando ainda não havia agricultura, exigia deslocamentos constantes. Se o local fosse propício para se estabelecer, mesmo que provisoriamente, o desejo de se conhecer onde o sol (o primeiro “deus”) “nasce” e se põe deve ter levado os primeiros humanos a se aventurarem em direção ao horizonte que nunca chegava, caso fosse uma planície ou meio aquático. Se fosse uma elevação, sempre haveria outro horizonte logo atrás. Por milênios, a natureza foi a nossa “casa”.

Depois, vieram as orientações pelas estrelas, que possibilitaram ir cada vez mais longe. Ou seja, viajar e sobreviver eram quase indissociáveis e a tradição oral certamente mencionava isso.

Muito posteriormente apareceu a escrita e, conforme essa foi evoluindo, as viagens começaram a fazer parte das grandes narrativas, como o mito babilônico de Gilgamesh (aproximadamente 1.900 a.C.) e os poemas Ilíada e Odisseia do grego Homero (aproximadamente 800 a.C.). Nesse mesmo período, já temos também o Antigo Testamento relatando as viagens de Abraão em busca de uma terra prometida (Godoi Trigo, 2010).

As trocas e escambo de mercadorias também propiciavam as viagens. Quando evoluímos para o metalismo (criação das primeiras moedas de metal), as viagens puderam se estender, se voltaram para os mares e oceanos e se tornaram fundamentais para o comércio de produtos. Isso levou ao surgimento dos primeiros meios de hospedagem, as chamadas hospedarias, um dos primeiros produtos de ordem turística que se têm notícia.

Quando as viagens e deslocamentos se tornaram organizados, predefinidos e com intermediação, podemos dizer que o turismo moderno surgiu. Segundo a OMT (Organização Mundial do Turismo), turismo são as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período superior a um dia e inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros (Unwto, 2008). Essa definição já parte de uma visão positivista de unificação do conhecimento, hoje bastante contestada (Panosso Netto, 2011). De qualquer forma, o termo turismo tem origem no vocábulo francês tour, que significa volta (Unwto, 2008).

O turismo moderno tem relação com o chamado Grand Tour da nobreza europeia, no século XVIII, que enviava seus jovens dentro da Europa para adquirir conhecimento empírico antes de ingressarem na idade adulta. Com a Revolução Industrial, a burguesia europeia também teve acesso às viagens e logo passou a frequentar lugares antes inacessíveis em suas colônias da África, Américas e Ásia, o que gerou o primeiro grande fluxo turístico global (Godoi Trigo, 2010).

Em 1841, o jovem missionário inglês Thomas Cook organizou uma viagem de trem dentro da Inglaterra para pessoas participarem de uma reunião sobre o combate ao alcoolismo. Tendo sucesso, passou a organizar outras viagens de trem pela Europa, criando assim o agenciamento de viagens e inaugurando o turismo tal qual o conhecemos hoje (Williamson, 1998).

Com a implantação das fábricas e a consequente mudança de camponeses para as cidades, nada mais compreensivo que, assim que as relações de trabalho fossem minimamente reguladas (saindo do modelo quase escravista do início), o desejo de retorno (mesmo que temporário) aos campos mais tranquilos se estabelecesse. Contribuíram muito para isso as expedições aos ainda selvagens continentes americano e africano, relatadas em livros de grande repercussão, em conjunto com os textos de viagens fictícias e os poemas de grande carga emocional do Romantismo, que muitas vezes versavam sobre lugares idealizados. Além, é claro, dos primeiros guias escritos de viagens e a popularização dos mapas (Godoi Trigo, 2010).

Em decorrência da expansão marítima e ferroviária, vieram as primeiras exposições mundiais, convenções e feiras de negócios. Podemos citar também o enorme sucesso dos circos americanos, que por onde passavam (não só nos EUA) despertavam o fascínio por uma vida itinerante e pelo exótico, vindo de lugares desconhecidos. Por último, o grande fluxo migratório do final do século XIX finalmente normatizou os deslocamentos e deixou o turismo mais acessível às classes menos favorecidas. Ao mesmo tempo, as praias e litorais foram se tornando mais atraentes, alegando-se supostas qualidades terapêuticas do mar, pois até o início do século XX eram lugares de pobres, viciados e selvagens. O mundo se tornava cada vez menor.

3. Sustentabilidade

O mundo atual apresenta desafios nunca enfrentados pela humanidade. A ânsia pelo crescimento econômico a todo custo trouxe, sem dúvidas, uma grande melhoria nas condições de vida da população em geral desde a Revolução Industrial do século XVIII. Houve aumentos expressivos na expectativa de vida acompanhados de menor mortalidade infantil, resultando em um crescimento exponencial da população mundial. Esse fato, aliado à falta de consciência ambiental, nos fez seguir a trilha da exploração sem limites do planeta, o que já está gerando muitos sinais de alerta perigosos por parte da natureza. Todos os anos, consumimos muito mais do que o planeta pode prover (Farley, 2010).

As ideias de vida simples e harmoniosa com a natureza são defendidas pelo menos desde a Grécia Antiga e chegaram aos tempos modernos nos anos 1950, a partir de algumas poucas críticas ao consumismo e exploração de recursos naturais, principalmente nos Estados Unidos e Europa do pós Segunda Guerra. Na final da década seguinte, esses mesmos temas foram bastante defendidos pelos hippies e pela contracultura.

Nos anos 1970, o debate se intensifica. Tivemos a 1ª Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente Humano da ONU em 1972. Tivemos ainda a Crise do Petróleo, que iniciou uma corrida por energias alternativas.

Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, traz o conceito de desenvolvimento sustentável para o discurso público. Na década seguinte, tivemos a Rio-92, marcando a forma como a sociedade entende sua relação com a Terra. Foi lá que a comunidade política internacional admitiu abertamente que era necessário harmonizar o desenvolvimento socioeconômico com o uso dos recursos naturais.

Na virada do século XX para o XXI, a Organização das Nações Unidas lança os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e finalmente em 2015 os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com o turismo ocupando papel de destaque como vetor de desenvolvimento.

Durante todo esse tempo, é obvio que houve avanços e desenvolvimento de um referencial teórico robusto, mas o tema da sustentabilidade nunca foi realmente central no desenvolvimento do ser humano, seja na sociedade, economia ou no meio ambiente, que formam o chamado “tripé sustentável”. Sempre foi tratada como algo destinado à ambientalistas ou “eco-chatos”. Infelizmente, esse conceito nunca foi suficientemente importante a ponto de reger as ações dos países desenvolvidos, que são os que mais contribuem para a atual situação de desequilíbrio em que vivemos. Afinal, não é necessário ser um ativista ambiental para entender que os recursos naturais deste planeta em que vivemos são finitos. Portanto, deveria ser óbvia a escolha pela sustentabilidade e conservação, mas sabemos que não o é.

Dentro do referencial teórico, podemos citar o conceito de Nudge. No Brasil, foi traduzido como “Arquitetura da Escolha” e pode ser entendido como estímulo, incentivo ou “cutucão” (Thaler, Sunstein, 2008). Inspirado nos estudos do prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman e outros sobre economia comportamental, Nudge foi aplicado à sustentabilidade no turismo pela pesquisadora eslovena radicada na Austrália Sara Dolnicar (2020) e seus colegas, entre outros.

4. Conclusões

Ecoturismo é um termo muito adequado para analisarmos as relações entre hospitalidade e sustentabilidade. Primeiramente porque o termo teve origem na palavra Ecologia, que por sua vez significa estudo da casa (do grego “oikos”, embora haja controvérsias quanto à essa origem). Casa, nesse caso, significaria a nossa morada, ou o planeta Terra. Ora, casa e hospitalidade são conceitos intimamente relacionados.

O conceito de Ecoturismo surgiu no final dos anos 1970, dentro das preocupações ambientais aqui já abordadas, e diz muito da nossa relação com a natureza. Afinal, esse segmento do turismo é feito essencialmente disso, do contato direto com o ambiente natural e tem como premissa a sustentabilidade.

O turismo em geral se relaciona ainda com vários objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). Ao lançar os objetivos, a própria ONU o reconheceu como uma das atividades essenciais para o desenvolvimento sustentável no mundo, pela capacidade de gerar empregos e promover a cultura local, além de estratégico para monitorar os impactos e gerir os recursos naturais (Unwto, 2018).

Nossa relação com o outro passa pelo meio-ambiente em diversos aspectos: nos deslocamentos, nas celebrações, nos conflitos, etc. Não é difícil entender que hospitalidade promove a boa relação entre os seres humanos, que tem o dever de repassar isso para o meio-ambiente, a sua “casa”. O turismo pode ser esse meio.

A Terra é muito mais antiga do que o Ser Humano. Somos uma mera vírgula na história planetária. É muito provável que, da mesma forma que ela passou bilhões de anos sem a presença do Ser Humano, passará outros tantos da mesma forma após a extinção de nossa espécie. Sendo assim, podemos dizer que somos hóspedes temporários. Péssimos hóspedes, por sinal.

O conceito de hospitalidade diz respeito à relação do homem com a sua espécie. Nada diz da sua relação com o meio-ambiente. O que nos faz pensar se existiria uma hospitalidade intencional da natureza. Não se pode negar o fato de que a natureza é muito hospitaleira para a vida humana, pois propiciou as condições para a própria vida “chegar” e florescer em abundância.

Para aceitarmos esse conceito de hospitalidade intencional, teríamos que considerar a existência de uma intenção na criação, fato que nem todos aceitam no mundo moderno. Mas nem sempre foi assim. Durante muitos séculos, o homem interpretou as forças da natureza como manifestações do “humor” divino. Poucos duvidavam disso, podendo acabar na fogueira se duvidassem. Seria então a Natureza o reflexo da hospitalidade (ou inospitalidade) de Deus para conosco?

Para Leonardo Boff, “[a hospitalidade] é um dever que todos devem praticar e é um direito que todos devem gozar”. (Boff, 2005, p. 110). Entretanto, para isso deve ocorrer a boa vontade incondicional, o único bem o qual não deve haver restrição alguma. Devemos acolher o próximo com generosidade, pois todos vivemos na mesma Casa Comum, a Terra, logo, os sujeitos devem viver como irmãos, exercitando a tolerância.

A relação entre turismo e hospitalidade é óbvia e muito antiga, mas a junção dos temas da hospitalidade com a sustentabilidade ocorreu devido a ideia básica, entendida em Boff (2005), de que o gesto primordial de hospitalidade é o da mãe-terra acolhendo à raça humana. Dessa forma, entendemos que a hospitalidade exige o reconhecimento de si e do próximo como algo pertencente à natureza, sendo fundamental nos enxergarmos no outro (Valduga, 2011).

Para resumirmos a definição de Boff (2005) a respeito da hospitalidade, podemos entendê-la como uma analogia à natureza. O autor tem convicção de que os homens deveriam se ver refletidos na natureza, observando o modo que ela surge e se desenvolve, sempre a partir de trocas. A Terra é a grande hospedeira de todos, no entanto a tratamos com hostilidade, assim como outros seres que nela habitam. Não nos sentimos pertencentes à natureza nem percebemos o outro como semelhante.

Da mesma forma que a hospitalidade, a sustentabilidade exige uma nova percepção dos atores, baseada fundamentalmente em alguma motivação oriunda da própria sociedade, de forma que ocorra não somente o pensamento, mas também uma mudança atitudinal. A sustentabilidade requer as mesas virtudes da hospitalidade, que são a convivência, o respeito e a tolerância (Valduga, 2011).

Por tantas vezes já utilizado, o termo sustentabilidade já encontra-se de certa forma saturado. Contudo, não devemos esquecer que sua gênese está alavancada na crítica ao desenvolvimentismo, que pode ser entendido como aquele crescimento com impactos sociais e ambientais negativos, de acordo com Sachs (2007).

Por fim, o turismo pode ser importante veículo das mudanças e elo entre a hospitalidade e a sustentabilidade. Não apenas pelos benefícios já conhecidos, como geração de emprego e renda, mas também contribuição para a consciência ambiental (Dias, 2008), culminando na própria realização humana e espiritual (Panosso Netto, 2012). Dessa forma, o Ecoturismo sustentável seria também uma das formas de retribuirmos a “hospitalidade divina”.

5. Referências

BAPTISTA, Isabel. Para uma geografia de proximidade humana. Revista Hospitalidade, São Paulo, ano 2, n. 2, p. 11-22, 2. sem. 2005.

BOFF, Leonardo. Virtudes para um outro mundo possível. Vol I: Hospitalidade, direito e dever de todos. Petrópolis: Vozes, 2005.

CAMARGO, Luiz Octávio de Lima. Hospitalidade. São Paulo: Aleph, 2004.

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Conheça os novos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Nações Unidas, 2015. Disponível em bit.ly/3flnbzQ. Acesso em 18 mai 2021.

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FARLEY, J. (2010). Conservation through the economics lens. Environmental management, 45(1), 26-38.

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SACHS, I. Rumo à Ecossocioeconomia. São Paulo: Cortez, 2007.

THALER, R. H.; SUNSTEIN, C. R. Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth and Happiness. New Haven: Caravan Book, 2008; 304p.

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VALDUGA, M. C.. A Relação entre a Sustentabilidade e a Hospitalidade: Possibilidade de Formação dos Sujeitos. V Fórum Internacional de Turismo do Iguassu, 2011.

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