Existe uma Teoria do Turismo?

Chegando ao final da segunda década do séc. XXI, o ser humano encontra-se mais uma vez cercado por dilemas. Eles fazem parte da condição humana desde que o primeiro homem se entendeu como tal. São consequências naturais daquilo que chamamos de “consciência”. Porém, é plausível dizer que os dilemas atuais sejam mais complexos do que qualquer outro que o ser humano já tenha se deparado no decorrer de sua história, impulsionados principalmente pela tecnologia que avança a níveis inimagináveis e que podem colocar a própria condição humana em cheque. Ou, dependendo do ponto de vista, salvá-la (eis mais um dilema). São muitos os contrastes que abastecem esses dilemas, mas podemos citar alguns: escassez dos recursos naturais x desenvolvimento econômico, globalização x identidades regionais, Direita x Esquerda (antigo, mas ainda muito presente), poucos bilionários x muitos miseráveis, entre tantos outros. Ao mesmo tempo, o capitalismo avança e com ele a sua lógica de consumismo desenfreado, que nada mais é do que uma ferramenta para se retroalimentar. Esse texto visa refletir sobre a existência ou não de uma teoria do turismo, que completa 180 anos de atividades estruturadas em 2021. Visa ainda ponderar como essa teoria pode auxiliar na nova configuração do turismo após a crise da Covid-19. Com caráter social e econômico, o turismo deve se basear apenas nas teorias já consolidadas relativas à essas áreas para consolidar a sua própria ou ir além?

INTRODUÇÃO

O turismo tradicional até 2020 aparecia como mais um produto de ordem capitalista. Hordas de turistas invadiam praias, campos e cidades, gerando na teoria o desenvolvimento econômico destes destinos, em conjunto com uma série de “efeitos colaterais” já bastante discutidos: degradação do meio ambiente e do patrimônio cultural, transtornos aos moradores, inflação de preços, especulação imobiliária acarretando o desaparecimento ou marginalização de comunidades inteiras (a chamada gentrificação), etc. Era o chamado overtourism (ou excesso de turismo) como consequência direta do turismo predatório (Dodds, Butler, 2019).

Até que uma nova classe de coronavírus chamada de Covid-19 surge, se dissemina em uma velocidade assombrosa através do próprio turismo massificado e globalizado e paralisa o mundo em apenas alguns dias, com consequências que devem se arrastar pelos próximos anos (ou décadas). Nenhuma crise recente chegou perto de fazer tal estrago, a ponto de se criar o termo “Novo Normal” para descrever o que virá a seguir. Mesmo não se sabendo exatamente o que ele significa.

Consequentemente, chegamos a muitas questões e poucas respostas: haverá um novo turismo, com a sustentabilidade sendo um indicador de confiança exigido pelos viajantes, assim como os protocolos sanitários? Qual será o papel do turismo para a recuperação econômica? Os destinos que sofriam com o overtourism permitirão que ele retorne? O turismo será mais “elitista”? Por último, o turismo será ressignificado, para não permitir mais uma disseminação tão grande de novas doenças? São perguntas bastante pertinentes ao momento único que se apresenta e uma teoria do turismo inovadora pode auxiliar nessa transição rumo a mudanças profundas e necessárias.

BREVE HISTÓRICO DO TURISMO

Este artigo não visa explicar detalhadamente toda a evolução das viagens e do turismo, pois isso já existe em várias fontes. Mas essa histórico é necessário para nos situarmos e entendermos, ao menos superficialmente, o fenômeno turístico.

As viagens fazem parte do imaginário humano desde as primeiras civilizações. A busca pela sobrevivência em uma época dominada por animais mais fortes, quando ainda não havia agricultura, exigia deslocamentos constantes. Se o local fosse propício para se estabelecer, mesmo que provisoriamente, o desejo de se conhecer onde o sol (o primeiro “deus”) “nasce” e se põe deve ter levado os primeiros humanos a se aventurarem em direção ao horizonte que nunca chegava, caso fosse uma planície ou meio aquático. Se fosse uma elevação, sempre haveria outro horizonte logo atrás.

Depois, vieram as orientações pelas estrelas, que possibilitaram ir cada vez mais longe. Ou seja, viajar e sobreviver eram quase indissociáveis e a tradição oral certamente mencionava isso.

Muito posteriormente apareceu a escrita e, conforme essa foi evoluindo, as viagens começaram a fazer parte das grandes narrativas, como o mito babilônico de Gilgamesh (aproximadamente 1.900 a.C.) e os poemas Ilíada e Odisseia do grego Homero (aproximadamente 800 a.C.). Nesse mesmo período, já temos também o Antigo Testamento relatando as viagens de Abraão em busca de uma terra prometida (Godoi Trigo, 2010).

As trocas e escambo de mercadorias também propiciavam as viagens. Quando evoluímos para o metalismo (criação das primeiras moedas de metal), as viagens puderam se estender, se voltaram para os mares e oceanos e se tornaram fundamentais para o comércio de produtos. Isso levou ao surgimento dos primeiros meios de hospedagem, as chamadas hospedarias, um dos primeiros produtos de ordem turística que se têm notícia.

Quando as viagens e deslocamentos se tornaram organizados, predefinidos e com intermediação, podemos dizer que o turismo moderno surgiu. Segundo a OMT (Organização Mundial do Turismo), turismo são as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período superior a um dia e inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros (Unwto, 2008). Essa definição já parte de uma visão positivista de unificação do conhecimento, hoje bastante contestada (Panosso Netto, 2011), mas que demonstra que o turismo se apropria de outras teorias para tentar criar a sua. De qualquer forma, o termo turismo tem origem no vocábulo francês tour, que significa volta (Unwto, 2008).

O turismo moderno tem relação com o chamado Grand Tour da nobreza europeia, no século XVIII, que enviava seus jovens dentro da Europa para adquirir conhecimento empírico antes de ingressarem na idade adulta . Com a Revolução Industrial, a burguesia europeia também teve acesso às viagens e logo passou a frequentar lugares antes inacessíveis em suas colônias da África, Américas e Ásia, o que gerou o primeiro grande fluxo turístico global (Godoi Trigo, 2010).

Em 1841, o jovem missionário inglês Thomas Cook organizou uma viagem de trem dentro da Inglaterra para pessoas participarem de uma reunião sobre o combate ao alcoolismo. Tendo sucesso, passou a organizar outras viagens de trem pela Europa, criando assim o agenciamento de viagens e inaugurando o turismo tal qual o conhecemos hoje (Williamson, 1998).

Com a implantação das fábricas e a consequente mudança de camponeses para as cidades, nada mais compreensivo que, assim que as relações de trabalho fossem minimamente reguladas (saindo do modelo quase escravista do início), o desejo de retorno (mesmo que temporário) aos campos mais tranquilos se estabelecesse. Contribuíram muito para isso as expedições aos ainda selvagens continentes americano e africano, relatadas em livros de grande repercussão, em conjunto com os textos de viagens fictícias e os poemas de grande carga emocional do Romantismo, que muitas vezes versavam sobre lugares idealizados. Além, é claro, dos primeiros guias escritos de viagens e a popularização dos mapas (Godoi Trigo, 2010).

Em decorrência da expansão marítima e ferroviária, vieram as primeiras exposições mundiais, convenções e feiras de negócios. Podemos citar também o enorme sucesso dos circos americanos, que por onde passavam (não só nos EUA) despertavam o fascínio por uma vida itinerante e pelo exótico, vindo de lugares desconhecidos. Por último, o grande fluxo migratório do final do século XIX finalmente normatizou os deslocamentos e deixou o turismo mais acessível às classes menos favorecidas. Ao mesmo tempo, as praias e litorais foram se tornando mais atraentes, alegando-se supostas qualidades terapêuticas do mar, pois até o início do século XX eram lugares de pobres, viciados e selvagens.

A IMPORTÂNCIA DO TURISMO

Com o crescimento das companhias aéreas, principalmente após a 2ª Guerra Mundial, o turismo tornou-se mundialmente massificado. Pacotes de viagens foram criados pelas agências, agregando hotel, passagem e outros serviços. Era a válvula de escape perfeita para milhões de empregados que enxergavam nas férias um momento para relaxar e sair da rotina. Nesse ponto, entra fortemente o conceito de lazer moderno, no qual o turismo se insere (Krippendorf, 2009). Quando se fala em turismo de massa, nos referimos principalmente ao turismo de lazer, que representa 56% do fluxo turístico mundial. Outros motivos para as pessoas viajarem são visitas a parentes e amigos, religião e saúde, com 27% e negócios com 12% do total. Os outros 5% são indeterminados. No total, são mais de 1 bilhão de pessoas viajando pelo mundo, movimentando quase USD 8,8 trilhões ou mais de 10% do PIB mundial (Unwto, 2020).

Quase todas as empresas da chamada Nova Economia ou “Era do Compartilhamento” têm alguma relação com o turismo. Über e seus concorrentes têm muita, pois trata da mobilidade urbana que é dividida entre moradores e turistas. Netflix também influencia o turismo por conta das séries e filmes famosos. Google não é assim tão novo, mas enxerga o turismo como estratégico, visto que possui a ferramenta travel para montar roteiros e gerenciar viagens (alguns sugerem que vão vender viagens em algum momento, assim como já fazem grandes varejistas como a Magazine Luiza). Facebook e principalmente seu “filhote” Instagram se baseiam muito na postagem de fotos, especialmente de viagens. Aliás, Instagram e Youtube possibilitaram o surgimento de uma profissão impensável há poucos anos: a de nômade digital, ou pessoas que viajam o mundo postando vídeos e fotos, sobrevivendo essencialmente por conta desses meios digitais. O que gera a discussão (teoria?) se seriam ou não turistas.

Algumas dessas empresas da Nova Economia são diretamente relacionadas ao turismo. Temos como maior exemplo o fenômeno Airbnb, responsável por uma enorme fatia das hospedagens no mundo atualmente, principalmente com opções alternativas como aluguel de quartos ou casas de temporada. Bastante polêmico (assim como o Über), por não pagar impostos tais como um hotel ou pousada, além de contribuir para o overtourism (Dodds, Butler, 2019). Mas que revolucionou o mercado.

Não podemos esquecer também que o fim do petróleo já não está tão distante e isso causará impactos profundos na economia e, por conseguinte, no turismo. Nações árabes desejam seguir o exemplo dos Emirados Árabes para se tornarem também turísticas. China, a nação mais populosa do mundo e que mais emite turistas, também quer seguir essa linha.

O turismo se relaciona ainda com vários objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). Ao lançar os objetivos, a própria ONU o reconheceu como uma das atividades essenciais para o desenvolvimento sustentável no mundo, pela capacidade de gerar empregos e promover a cultura local, além de estratégico para monitorar os impactos e gerir os recursos naturais (Unwto, 2018). Dentro desse contexto, podemos destacar o chamado turismo de base comunitária. Nele, valoriza-se a cultura local e gera-se renda real, pois quase todo o montante envolvido em um programa desse tipo é revertido para a comunidade. Diferente de um roteiro tradicional, onde todo o benefício é diluído em taxas ou impostos. Além disso, esse tipo de turismo também atua na preservação do meio ambiente e das comunidades, seguindo a linha de que floresta em pé vale mais do que desmatada (Dos Santos, 2010).

Por último, tudo o que de mais relevante ocorreu no século XX e início do XXI moldou o turismo de hoje: guerras, crises, pandemias, Jogos Olímpicos e desportivos, dolarização, emancipação feminina e dos negros, maior visibilidade das minorias, programas espaciais, artes, espetáculos e comunicações até chegarmos aos computadores, internet, celulares, tablets, redes sociais, drones e gps. Seguirá sendo assim, dentro da chamada 4ª Revolução Industrial (a Era dos Robôs), com as cidades inteligentes, realidade virtual, inteligência artificial, internet das coisas, viagens planetárias e tudo mais que a inventividade humana (ou robótica) permitir.

Pense em algum campo do conhecimento ou setor da Economia: o turismo pode se entrelaçar com ele. Professores, cientistas, médicos, advogados e engenheiros viajam e podem utilizar o turismo como ferramenta de trabalho, lazer ou até mesmo como atividade paralela. Indústria, comércio, serviços e Ong’s idem. O turismo é um termômetro da Economia mundial e uma teia invisível que se envolve com mais de 500 setores (Aldrigui, 2018). Se a arte, a cultura e os esportes são espelhos da vida, talvez o turismo possa ser considerado a sua moldura.

ENFIM, EXISTE UMA TEORIA DO TURISMO?

Hoje, é plausível dizer que o turismo é um fenômeno social e econômico (e até mesmo político) e por isso “bebe” das fontes dessas disciplinas. Mas afinal, já existe uma teoria consolidada sobre o turismo?

Conforme já foi dito, o turismo floresceu dentro de uma ótica capitalista, destacando fortemente o seu caráter econômico. Entender esse caráter é relativamente simples: basta partir do pressuposto de que é necessário ter alguma condição financeira favorável para viajar (MacCannell, 1976), pois quem está preocupado se irá ou não jantar certamente não estará pensando nisso. Mesmo os mochileiros, nômades digitais, worldpackers e adeptos do “viajar grátis” devem ter alguma condição financeira para viajar. Não estamos obviamente falando de andarilhos, imigrantes ou refugiados.

Essa visão tende a reduzir o turismo à uma lógica tecnicista e positivista, pois se analisa somente os seus impactos e resultados, basicamente. Um contraponto seria a visão sistêmica, mas mesmo ela ocasiona uma visão fragmentada (Panosso Netto, Lohmann, 2012), descartando seu caráter transformador (Castillo Nechar, 2005).

Já sua parte sociocultural é bem mais complexa: deve ser levado em consideração todos os motivos que levam o indivíduo a querer se deslocar para um lugar fora de seu convívio habitual e toda a interação com outros indivíduos que é feita não apenas entre sua partida e retorno, mas desde a sua decisão de viajar até muito além de seu regresso (se é que haverá regresso) . Para auxiliar nesse entendimento, enfoques como a Fenomenologia podem ser bastante úteis . Nela, nos baseamos na observação e percepção do fenômeno turístico como “um processo desenvolvido no tempo e no espaço, e como atividade altamente dinâmica implementada por um indivíduo ou por um grupo (Panosso Netto, 2011, p. 117).

É notório que existem muitos textos que se debruçam sobre as perguntas “o que é turismo?”, “quais são os fundamentos do turismo?”, “como o turismo se organiza?”, etc. A própria evolução do turismo, exposta no decorrer deste artigo, e sua atual visibilidade propicia e estimula a formulação dessas questões.

A complexidade turística faz com que ele se fracione em diversos segmentos ou conceitos, todos eles com considerável produção bibliográfica. É o caso do chamado “Turismo de Experiência”. A ideia de autenticidade, contestação do status quo e defesa da natureza, que os gregos antigos já discutiam, chegou aos tempos modernos com os hippies e a contracultura nos anos 1960, cuja ideologia foi perseguida, negada e praticamente esquecida durante os “petrolíferos” anos 1970 e os “yuppies” 1980. Ao final dessa década e início dos anos 1990, com o aumento do debate sobre as mudanças climáticas, essa temática volta à tona e se estabelece. Por volta de 1998, essas ideias, aliadas ao advento da internet (que já foi chamada de realização do sonho hippie, por ser colaborativa e a priori não ter “dono”), contribuíram para dar forma a um modelo que foi batizado de “Economia da Experiência”: a próxima economia após a agrária, industrial e a de serviços (Pine, Gilmore, 1999).

Dentro disso, surge logo depois o que chamamos hoje de turismo de experiência. Segundo o livro de mesmo nome,

“o turista de hoje quer mais do que apenas alguns dias para descansar. Ele deseja que sua vontade e expectativa sejam atendidas, ele busca viagens que o faça passar por sensações ímpares, ele quer produtos e serviços diferenciados que lhe proporcionem uma experiência marcante, seja se hospedando em um hotel de gelo, seja provando uma comida que o leve a uma nova experiência sensorial" (Panosso Netto, Gaeta, 2010, p. 7).

Em paralelo, também surgem conceitos como turismo de natureza e ecoturismo, passando a turismo sustentável e responsável.

Todos esses conceitos e reflexões devem obrigatoriamente evoluir para uma teoria? Esse termo se origina do grego e significa 'contemplação', 'reflexão', 'introspecção', ‘observação’ (Montanari, 2004). Segundo a Oxford English Dictionary (2021), além de outras definições, teoria é também um “conhecimento sistemático, fundamentado em observações empíricas e/ou postulados racionais, voltado para a formulação de leis e categorias gerais que permitam a ordenação, a classificação minuciosa e, eventualmente, a transformação dos fatos e das realidades da natureza”.

Portanto, como qualquer saber humano, uma teoria do turismo deveria partir da observação para o questionamento e formulação de hipóteses, catalogações e leis. Se a pergunta inicial se referir a existência de apenas uma teoria do turismo, a resposta mais plausível é que não uma, mas várias teorias existem sobre o turismo. Tanto que já se pode evocar uma epistemologia do turismo, ou seja, o estudo e análise de seus próprios postulados, conclusões e métodos (Panosso Netto, 2011). Alguns dizem que o turismo já se constitui em uma ciência, embora a maioria conclua que ainda está em vias de se tornar uma ou mesmo que nunca chegará a ser uma, isso de forma preconceituosa ou por mera análise factual (Panosso Netto, 2011). O que se deve questionar é se essa “elevação de patamar” é necessária para trazer mudanças positivas (mas não positivistas) na sociedade (a priori, a finalidade maior da Academia) ou seria apenas uma questão egocêntrica.

Isso tudo demonstra como o turismo já é debatido e teorizado intensamente nos meios acadêmicos. Embora há muito menos tempo do que outras disciplinas como a própria Economia e Sociologia, o que se deve levar em consideração. Porém, já existe uma Teoria Geral do Turismo tida como única? Os professores Alexandre Panosso Netto e Guilherme Lohmann (2012) se debruçaram sobre a tarefa de identificar uma no livro “Teoria do Turismo: Conceitos, Modelos e Sistemas”. Nele, estão listados 73 conceitos, modelos e sistemas junto de tabelas, gráficos e imagens, abrangendo todos os “atores” dessa cadeia: os acadêmicos e pensadores, o mercado, o destino (e sua comunidade local) e finalmente o principal: o próprio turista, afinal sem ele não existiria turismo e muito menos teorias a respeito dele. O turista muitas vezes é negligenciado no estudo do fenômeno, como se fosse um ser “descerebrado” e afeito a atitudes de “rebanho” (Panosso Netto, 2011).

Ou seja, esse livro indica que a própria catalogação de diversos conceitos, modelos e sistemas por si só já formariam uma teoria geral. Mas também deixa a impressão de que ela é mutante e incompleta, pois sempre haverá novos conceitos, modelos e sistemas a serem adicionados. Mais uma vez, o mais importante é quais mudanças são feitas na sociedade através das teorias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Voltando ao início do presente artigo, podemos afirmar que uma teoria do turismo consolidada pode auxiliar na reconstrução dessa atividade tão abalada com a pandemia da Covid-19. Para tanto, o mercado deve procurar soluções dentro da própria academia, fato que não ocorre com frequência, especialmente no Brasil (Aldrigui, 2003). Talvez assim, um novo turismo emerja, completamente voltado para a real sustentabilidade e que sirva de mola propulsora para mudanças individuais e da própria sociedade.

O turismo pode ser um importante veículo das mudanças. Não apenas pelos benefícios já conhecidos, como geração de emprego e renda, mas também contribuição para a consciência ambiental (Dias, 2008), culminando na própria realização humana e espiritual (Panosso Netto, 2012). O viajante esclarecido cobra mais dos governos e das empresas. Quanto mais viajantes esclarecidos existirem, maior o poder da mensagem. Antes da crise, eram mais de 1 bilhão e 400 milhões de viajantes pelo mundo, não contando os refugiados, aqueles que são obrigados a se deslocar (Unwto, 2020). O poder dessas pessoas pode mudar o mundo, pois são elas que interagem e/ou expõem as necessidades dos outros 6 bilhões de habitantes que não viajam e vivem em condições de miséria e pobreza, ou próximo disso.

Na questão ambiental, lembramos de um autor quase ignorado em sua época e que vem ganhando importância nesse debate: o falecido economista romeno Georgescu-Roegen já dizia que, se a economia toma recursos de qualidade de uma fonte natural, e despeja resíduos sem qualidade de volta para a natureza, então não é possível tratar a economia como um ciclo fechado e isolado da natureza (Cechin, Da Veiga, 2010).

As teorias e tratados capitalistas são bastante conhecidos, mas talvez tenha chegado a hora de se analisar e extrapolar os limites do turismo dentro do capitalismo, sistema econômico predominante no mundo e que, ao que tudo indica, caminha para a falência se continuar no ritmo em que se encontra, levando junto consigo o meio ambiente e a sociedade como a conhecemos. Apenas isso já bastaria para criarmos uma nova teoria.

REFERÊNCIAS

ALDRIGUI, Mariana. Educação Superior em Hotelaria: Um exercício de aproximação das diretrizes curriculares brasileiras à realidade do mercado de trabalho em São Paulo. Dissertação de Mestrado, ECA-USP, 2003.

CASTILLO NECHAR, M. (2005) “Inter, multidisciplina e hibridación en los estúdios socioculturales del turismo”. Pasos. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural 3(2): 229-243.

CECHIN, Andrei D.; DA VEIGA, José Eli. A economia ecológica e evolucionária de Georgescu-Roegen. Rev. Econ. Polit., vol.30, no.3. São Paulo, 2010.

DIAS, REINALDO. Introdução ao Turismo. 1. Ed. – 2ª Reimpressão. São Paulo: Atlas, 2008.

DODDS, Rachel; BUTLER, Richard. Overtourism - Issues, Realities and Solutions. Berlin: De Gruyter, 2019; 299p.

DOS SANTOS, Aristides F. L. Construir, habitar, viajar: reflexões acerca da relação comunicação-turismo comunitário. In: PANOSSO NETTO, Alexandre; GAETA, Cecília (Orgs). Turismo de Experiência. São Paulo: Senac, 2010; p. 119-131.

Entrevista a Alexandre Panosso Netto. Napoleón Conde Gaxiola. Revista Homo Viator. v.3, 2012, p. 134-139

GODOI TRIGO, Luiz Gonzaga. A viagem como experiência significativa. In: PANOSSO NETTO, Alexandre; GAETA, Cecília (Orgs). Turismo de Experiência. São Paulo: Senac, 2010; p. 21-41.

KRIPPENDORF, JOST. Sociologia do turismo. Para uma nova compreensão do lazer e das viagens. São Paulo: Aleph, 2009. (Edição comemorativa de 25 anos); 272p.

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MACCANNELL, D. The tourist. A new theory of the leisure class. New York: Schoken Books, 1976.

MONTANARI, F. Vocabolario della lingua greca - Greco Italiano (2ª ed). Torino: Loescher, ed. GI, 2004.

PANOSSO NETTO, Alexandre. Filosofia do Turismo: Teoria e Epistemologia. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Aleph, 2011; 200p.

PANOSSO NETTO, Alexandre; GAETA, Cecília (Orgs). Turismo de Experiência. São Paulo: Senac, 2010; 360p.

PANOSSO NETTO, Alexandre; LOHMANN, Guilherme. Teoria do Turismo: Conceitos, Modelos e Sistemas. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Aleph, 2012; 496p.

PINE, Joseph & Gilmore, James. The Experience Economy: Work is Theatre and Every Business Is a Stage. Boston: Harvard Business School Press, 1999.

WILLIAMSON, Andrew. The Golden Age of Travel. Thomas Cook Publishing, 1998.

Links

ALDRIGUI, MARIANA. Turismo e o Setores da Economia. Medium, 2018. Disponível em bit.ly/2Y36EdX . Acesso em 18 abr 2021.

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